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Entusiastas se mobilizam em defesa de produtor de vinho natural do RS

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Entusiastas se mobilizam em defesa de produtor de vinho natural do RS

Grupo discute encontrar maneiras de trazer os produtores de vinho natural para a legalidade e cogitam a construção de um adega comum

09 junho 2017 | 17:22 por Isabelle Moreira Lima

Um grupo de What’s App com 256 participantes discute, em tempo real, o caso do garagista Eduardo Zenker, que teve todos os vinhos apreendidos na quarta-feira (7) há mais de 24 horas. Entre os participantes, sommeliers, educadores, chefs de cozinha, enófilos, advogados, jornalistas. O que eles querem é achar uma maneira de preservar o estoque de Zenker e encontrar maneiras de trazer os produtores de vinho natural para a legalidade. Cogitam até a construção de um adega comum.

Lis Cereja, da Enoteca Saint Vin Saint, uma das maiores embaixadoras do vinho natural no Brasil. Foto: Gui Gomes/Estadão

Muitos desses produtores são o que o mundo do vinho chama de “garagista”, que elaboram vinhos com mínima intervenção enológica na garagem de casa. Desta forma, não usam muito dos produtos enológicos (leveduras adicionadas, químicos, etc.), tampouco tem grandes estruturas como as vinícolas grandes. Em vez de tanques de aço inoxidável, usa pipas de polipropileno.

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O blog conversou com Lis Cereja, dona da Enoteca Saint Vin Saint, organizadora da feira Naturebas e uma das maiores embaixadoras do vinho natural no Brasil. Para ela, o maior problema encontrado pelos produtores naturais hoje é a burocracia para a legalização, além do alto custo que ela representa. “Ninguém gosta de ficar na clandestinidade. As pessoas sofrem muito para se legalizar, muitas vezes, precisam parar de fazer vinho, encontrar outro trabalho para conseguir a renda necessária para pagar todos os custos e só então voltar a fazer vinho. É uma coisa louca, e muita gente escolhe a clandestinidade para não abandonar o vinho até se regularizar”, afirma ela que tem trabalhado ativamente pela divulgação da situação dos vinhateiros. “Este é o momento de levar a informação, expor a realidade e sensibilizar as pessoas da real situação dos produtores artesanais, que são precárias. A gente precisa do apoio do consumidor”, diz.

Segundo a restaurateur, neste momento está sendo organizada uma frente de financiamento coletivo para auxiliar Zenker caso seu estoque não seja liberado. Uma plataforma chamada “Vinho Livre” está sendo criada também para auxiliar outros produtores que possam vir a ter o mesmo problema. “Este é o maior patrimônio dele, o dinheiro de uma vida”, afirma.

A campanha de financiamento tem como objetivo regularizar a situação de outros produtores. Uma das possibilidades é construir uma vinícola comum que pode ser compartilhada por vinhateiros de uma mesma região.

O produtor Eduardo Z, da Arte da Vinha, que teve seus vinhos apreendidos em Garibaldi. FOTO: Alexandra Ungaratto/Divulgação

Ela também organiza um leilão virtual do estoque de Eduardo Zenker, caso ele seja liberado. “Vamos deixar claro que, caso não seja liberado, os vinhos não serão entregues e os lances ficam como doação. Mas estamos tentando reaver estoques por vias legais, apelando pelo bom senso.”

Por fim, Lis conta ainda que vai conversar com membros das bancadas ruralista e do setor agrícola para tentar flexibilizar o processo de inclusão do vinho artesanal dentro das leis.

Outros produtores de vinho natural estão temerosos que sejam os próximos a receber a fiscalização com mandatos de busca e apreensão. “A repercussão desses vinhos foi muito grande fora do país, em feiras de vinhos naturais em Londres, Paris, foram muito comentados na mídia, até pela Jancis Robinson (crítica inglesa), e isso chamou a atenção de muita gente. Mas é importante lembrar que até as grandes vinícolas do Brasil começaram de forma clandestina”, afirma sobre o fato de as denúncias terem partido de gente do setor.

“Todos os vinhateiros estão preocupados. Na serra gaúcha, os boatos correm.”

Por meio de nota, o Ibravin se manifestou sobre o assunto para afirmar que tem uma série de ações para auxiliar a formalização dos micro e pequenos produtores. Segundo o instituto, o Simples nacional para as vinícolas e para a regulamentação do vinho colonial podem ser um caminho para produtores de pequenos volumes. “O Ibravin está de portas abertas e à disposição para auxiliar todos que tenham interesse em se formalizar e atuar de forma colaborativa”, afirma a nota.

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