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Hugh Johnson e os vinhos naturais

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Hugh Johnson e os vinhos naturais

Um dos maiores críticos de vinho do mundo lança polêmica ao questionar os vinhos naturais e sugerir a palavra 'alternativos' para descrevê-los

07 fevereiro 2017 | 15:18 por Isabelle Moreira Lima

O crítico inglês Hugh Johnson publicou na última sexta, 3, no site da revista inglesa Decanter um artigo em que questiona os vinhos naturais. “Você pode devolver um vinho ‘natural’ ao restaurante porque ele é terrível ou ao pedi-lo você implicitamente aceitou todas as possibilidades e se comprometeu a pagá-lo?”, pergunta.

No texto, Hugh diz que já se viu nesta situação duas vezes e não sabe como reagir. Ele pondera que pode não estar afinado às tendências por sua idade avançada, 78 anos a serem completados em março. Lembra que não é particularmente fã da artista visual inglesa Tracy Emin e compara os vinhos naturais à obra da artista que mostra uma cama desarrumada. “Mas se eu vou a uma galeria de arte, a evidência está diante dos meus olhos. Posso vê-la e decidir não comprá-la. Se há uma rolha entre mim e a evidência, as coisas são diferentes”, afirma.

Johnson questiona o uso da palavra “natural”. Afirma que os vinhos são obra fruto de habilidade e, ocasionalmente, arte; e pergunta se o produtor tem o direito de vender um produto que abre mão de processos desenvolvidos ao longo dos anos como clarificação, estabilização, etc.

“Seria ‘natural’ um termo usado para justificar qualquer tipo de acidente? ‘Alternativo’ não seria um termo mais preciso?”

Hugh Johnson, the venerable English wine writer, visits Central Park on one of his many trips to New York, Oct. 12, 2016. Johnson Ñ one of his fieldÕs foremost authorities - is also a fervent student of trees and gardening. ÒI see the identity of a wine as quite parallel to the identity of a flower,Ó Johnson said. ÒGod didnÕt create 1,000 roses. We selected them.Ó (Andrew White/The New York Times)

O inglês Hugh Johnson, um dos maiores críticos de vinho do mundo. FOTO: Andrew White/NYT

Ele afirma ter provado vinhos naturais que o lembraram a Itália de 50 anos atrás, em que as uvas começavam a se decompor na carroça que as transportava até a vinícola, onde seriam amassadas com uma espécie de tacape. “Quem vende os vinhos ‘naturais’ diz que eles estão livres de um monte de ingredientes não viníferas. Entranhas de peixe: o horror. Clara de ovo: veneno. Sulfitos: alergênicos. Corantes: desonestidade. Açúcar: trapaça.”

O crítico diz que se você ler todo o rótulo do que há no mercado, deixará de comer, mas que espera não entrar em uma briga que já tem gente demais. “Eu apenas humildemente sugiro ‘alternativo’ como uma alternativa”, conclui o artigo.

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Polêmica. O artigo de Johnson é tão polêmico porque os vinhos naturais, embora ainda se tratem de um nicho, têm conseguido arregimentar fãs em todo o mundo, em um movimento que busca a alimentação o mais natural possível, com menos intervenção da indústria. No Brasil, há importadoras especializadas no segmento, como a Garrafa Livre.

E não foi a primeira vez que o crítico fala com certa desconfiança deste tipo de vinho. Na nova edição de seu guia anual de vinhos, que comemora 40 anos da publicação, ele discute os naturais como uma moda e descreve os rótulos como os que são produzidos ignorando precauções estabelecidas há muito tempo como o uso dos sulfitos, SO2, tido por muitos como o culpado pelas terríveis dores de cabeça que o vinho pode causar. (A indústria tem inclusive se ocupado de desenvolver instrumentos que os “filtrem” de vinhos que os utilizam — a grande maioria.)

No guia, ele afirma: “Para mim, o que bebo é muito importante para adotar atitudes veganas. É um jogo antigo, o da produção de vinhos, e a moda tem uma participação importante, mas os bebedores mais experimentados não se deixam levar por elas.”

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