Paladar

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‘Demorei a descobrir que merecia viver’

Geralmente você lê sobre receitas aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Andreia*

08 março 2018 | 03:00 por Patrícia Ferraz

Geralmente você lê sobre receitas aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Andréia*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Ficou com água na boca?

Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade. Essa lição eu demorei a aprender. Conheci o homem da minha vida aos 19 anos. Trabalhador, carinhoso e 10 anos mais experiente. Ele tinha tudo que eu admirava em um homem. Muito apaixonados, logo conseguimos alugar uma casa e em pouco tempo estávamos morando juntos.

O amor chegou rápido e desapareceu mais rápido ainda.

Passei a ser agredida dia sim, outro também. Xingamentos, humilhações e privações viraram rotina. De algum jeito e pouco a pouco, ele me convenceu que ficar trancada em casa enquanto ele ia trabalhar era o melhor para mim. E quanto mais ele bebia, menos liberdade eu tinha.

Durante 5 anos eu sofri todas as agressões que ele conseguiu pensar. Não foram poucas e, infelizmente, no quinto ano, tudo piorou.

Engravidei. Com uma nova vida, vieram novas agressões. Minha barriga passou a ser mais um alvo. Ele quase não voltava mais para casa e, quando voltava, era ainda pior. As contas se acumularam, o básico se foi. Passei fome, vivi no escuro e só sobrevivi graças à minha família.

Minha filha nasceu e as lembrancinhas da festa de 1 ano foram agressões para a família inteira. Xingamento para os amigos, um soco na boca do meu irmão. Eu aproveitei que tinha gente por perto e pedi socorro. Gritei que iria embora com uma força que nem sabia que morava dentro de mim. “Pode ir embora, mas não ache que vai viva”. O pavor de morrer foi maior do que o de ficar e mais uma vez eu me rendi.

Uma noite ele chegou em casa com a certeza de que eu estava com outro homem. Bêbado e desfigurado, ele repetia: tem neguinha querendo morrer hoje. Eu e minha filha queríamos viver. Me tranquei com ela no quarto por 3 horas até que ele desistisse de esmurrar a porta, que, por um milagre, resistiu. Depois de 5 minutos de silêncio, saí de lá. Aproveitei que ele estava caído no chão e corri com minha filha para a casa da avó.

O abrigo durou pouco. Ele e a faca apareceram na casa dos meus pais pouco tempo depois, berrando ameaças de morte. Minha mãe o enfrentou e precisei desaparecer da minha cidade.

Ficamos longe por um tempo, eu e minha filha. Mesmo com medo, tentei refazer minha vida: voltei a trabalhar e até me envolvi em um novo relacionamento. Mas não durou muito, aquele monstro voltou a ameaçar a todos ao meu redor e tivemos que fugir mais uma vez. Só eu e minha filha, o namorado novo não segurou a barra. Vivi cada dia achando que seria o último.

Quatro anos depois daquele pesadelo, minhas feridas seguem cicatrizando e eu sigo tentando me reerguer. Consegui reaver minha casa e tenho a guarda da minha filha. A confiança nos homens eu sigo tentando encontrar.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima. 

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