Paladar

A arte do duelo

21 fevereiro 2009 | 23:13 por Roberto Fonseca

foto degustação

Na semana que passou, estava eu degustando uma cerveja artesanal mineira, a Falke Ouro Preto, (sobre a qual vou escrever mais adiante) e, entre notas sobre aroma, sabor e espuma, me veio uma dúvida: será que ela era melhor, igual ou pior do que uma outra artesanal catarinense, a Eisenbahn Dunkel, do mesmo estilo? “Só tomando as duas lado a lado”, pensei em seguida. Foi daí que veio a idéia deste post: fazer “duelos” cervejeiros, de preferência às cegas, para decidir qual é a melhor cerveja de certa categoria.

Mas calma lá, não estou falando de nada muito técnico (ao menos não nesse caso), e sim de uma experiência que pode ser divertida e, ao mesmo tempo, instrutiva. Outro dia, já no final do expediente, me impressionava com mais uma coleção de peripécias políticas de Brasília quando tocou o telefone. Do outro lado da linha, uma colega de redação, com barulho de bar ao fundo, passou o recado: “Bob, desça aqui no Johnny que temos um desafio para você”. Em tempo, trata-se do bar imediatamente ao lado do jornal.

Ficou com água na boca?

Temendo ter sido convocado para uma degustação de bolovos, cheguei lá e vi meu lugar reservado em frente a outro colega, que também aprecia cervejas. Na mesa, uma fileira de copos de vidro simples, quatro deles. Pouco a pouco, foram sendo levados e trazidos cheios, três deles com cervejas claras e um com escuras. “Todas são cervejas conhecidas, vocês terão de adivinhar qual é qual”, disse a colega. A primeira foi fácil: malte e um suave lúpulo no aroma e sabor, sem muito amargor. Eu e o companheiro de degustação acertamos: Bavaria Premium..

As outras duas claras eram muito parecidas, com aroma e sabor típicos de cervejas industrializadas. Só conseguimos matar uma delas depois de uma série de “dicas”, como apoio ao carnaval por parte do fabricante: Brahma (a outra, por algum motivo obscuro, eu não me lembro, mas consultarei as testemunhas do ocorrido). A escura virou motivo de polêmica: “É uma malzbier”, cravei, pelo adocicado e ausência de torrado. Diante da negativa, contestei e fui informado que o rótulo apontava outro estilo: era uma Nova Schin Munich. Conformei-me com a decisão da “banca”, que, a esta altura, já não conseguia mais conter as gargalhadas com as reações dos dois degustadores a aromas e sabores não tão atraentes numa cerveja.

Piadas à parte, trata-se de uma experiência bastante válida. Tem dúvida sobre se a melhor “loira gelada” é a marca A, B ou C? Faça um duelo entre elas, às cegas. Quer saber por que uma cerveja puro malte pode ser melhor do que uma marca industrializada com cereais não-malteados? Ponha as duas para brigar nos copos. Muitas vezes, a ausência do rótulo – e de toda propaganda por trás dele – pode gerar resultados surpreendentes.

O primeiro passo é simples – e também divertido: arrumar uma pobre alma que se encarregue de servir as cervejas. Afinal, as garrafas não podem ficar à vista dos participantes da degustação. Se for num bar, o garçom pode fazer esse papel. Em casa, tem de ser algum amigo – que, em tempos de lei seca, ainda pode ser o motorista dos demais. Com ele ficará o trabalho de servir os copos e levá-los à mesa o mais rápido possível, para que a cerveja não perca suas características. Se por um lado a idéia de comparar a marca favorita de um ou outro na mesa é tentadora, vale também incluir cervejas de mesmo estilo, mas de qualidades diferentes na lista. Por exemplo, entre pilsens industriais, pode ser colocada uma pilsen premium e, ainda, uma representante alemã ou tcheca da marca, que pode servir como “balizadora” do estilo.

Bebida no copo, é hora de tirar suas conclusões. Ninguém precisa, ao menos a princípio, ler um manual para descobrir de qual cerveja gosta mais. A idéia é se guiar pelo próprio paladar. E nada de “narrar” sua avaliação, como locutor de futebol, pois isso pode influenciar os demais; se for o caso, basta anotar no papel. Ah, e deixe um pouco de cada cerveja no copo, para que ela esquente um pouco. Prove-a então: você pode se surpreender com os aromas liberados ou… bem, espero que, caso contrário, tenha reflexos rápidos para se afastar (hehehehe). Um detalhe importante: sim, eu sei que aquele pastelzinho de carne acabou de sair do forno, ou que a mãe do dono da casa preparou bolinhos de bacalhau. Mas, ao menos durante a degustação, o ideal é limpar a boca com pão e água, para não interferir no sabor.

Terminada a degustação, é hora de abrir os votos e as favoritas. Surpresa? O resultado foi o já “cantado”? Imprevisível. “Mas Bob, como posso saber se a cerveja de que mais gostei está adequada ao estilo?”, perguntará o leitor mais atento. Bom, isso será tema dos próximos posts. Aguardem.