Paladar

Alguns comentários sobre as cervejas do estilo livre do concurso da Acerva

11 junho 2012 | 12:36 por Roberto Fonseca

Depois da divulgação dos vencedores da sétima edição do concurso nacional da Acerva, realizado no feriado pela Acerva Paulista, mantenho a tradição de colocar aqui algumas impressões das cervejas que avaliei no estilo livre com ingrediente brasileiro. Na minha opinião, foi a categoria mais interessante do concurso, por abranger uma diversidade bem grande de estilos e outra ainda maior de ingredientes brasileiros. Alguns, bastante regionais e localizados, porém, eram “fora do alcance” até de jurados brasileiros. Como sugestão, a organização poderia apresentar os ingredientes junto com as cervejas para os avaliadores poderem ter uma ideia de qual a marca deixada por eles na receita (claro que nem sempre isso é possível, mas ajudaria bastante).

Foram 12 receitas no primeiro dia e 9 no segundo dia. Ressalvo que são apenas as minhas impressões, e que, em alguns casos, houve entendimentos diferentes dos demais participantes da avaliação. Preferi divulgá-los porque acho um feedback bacana para os produtores – que podem inclusive contestar ou argumentar a respeito da avaliação – e porque minha letra nas fichas, apesar do esforço, pode ser ininteligível. Por isso, se alguém tiver dúvidas, não hesite em escrever ao blog que eu tento “traduzir” pontos obscuros. Vamos lá, pela ordem:

Brown Porter com castanha-do-Pará: faltou presença mais forte da castanha no aroma (muito sutil); no sabor, ela foi mais notada por certa adstringência. Receita poderia ter um pouco a mais de malte chocolate para equilibrar torrado.

Ficou com água na boca?

Belgian Strong Ale com rapadura e mandioca: notas de solvente e maçã verde foram percebidas. Perdeu características destacadas dos adjuntos e ficou com álcool forte demais.

American Pale Ale com maná cubiu: quando a garrafa foi aberta, minha primeira impressão foi de que o ingrediente era o maracujá (houve um rápido delay entre a abertura e a leitura da descrição). Havia notas de goiaba no aroma e sabor também. Aroma mais complexo e potente que o sabor. Na boca notei ainda acidez um pouco acima do equilíbrio, mas é coisa de ajuste fino. Ficou no meu top 5.

Pilsen Lite com caldo de cana: problema de identificação da receita (é uma german pilsner, uma bohemian pilsner, uma standard american lager ou uma lite american lager?). Ideia é curiosa e escolha de cerveja lite foi corajosa, mas receita mostrou diacetil e DMS e ficou com residual adocicado demais.

Hefeweizen com framboesa: interessante, mas ficou parecendo mais uma framboise. Notas da hefeweizen ficaram cobertas demais até para a atenuação prevista na categoria pelo BJCP. Notava-se apenas cravo sutil ao fundo. Quem sabe se reduzir um pouco a quantidade da fruta.

Barley Wine oak aged com uva e carqueja: Boa cerveja. Percebia-se a carqueja com nitidez, mas o carvalho atropelou um pouco as notas de uva, em especial na boca (notas de madeira x taninos da casca da uva). Será que sem o oak aging a uva estaria mais evidente? Ficou no meu top 5.

Belgian Dark Strong Ale com polvilho doce de mandioca: Embora o ingrediente não apareça com destaque no aroma, ele é percebido claramente na boca. A receita base, porém, ficou adocicada demais e deveria ser mais atenuada.

Blonde Ale com pinhão: Até se percebe um pouco do pinhão no aroma, mas muito pouco na boca. E a gordura do ingrediente pode ter afetado a formação e duração de espuma da cerveja.

Witbier com guavira: Bela cerveja, bastante condimentada (poderia, no ajuste fino, reduzir um pouquinho só a condimentação). Fruta adicionou complexidade ao estilo. Mas teve problema de formação excessiva de espuma e carbonatação baixa. Ficou no meu top 5.

Rauchbier com pimenta comari e manga verde: Aroma bastante potente de pimenta e sabor “incendiário”, com picante exagerado, que chegava a cobrir o defumado na boca, se falar na manga. Paradoxalmente, porém, tentação de dar mais um gole era grande.

Witbier com mexerica: Bela cerveja. Mas mexerica parece ficar menos destacada do que poderia (e deveria) entre notas cítricas e condimentadas da cerveja. Mas agradou e também ficou no top 5 do primeiro dia.

Specialty beer com manga: faltou definir mais claramente o estilo. Houve problema sério de contaminação, que provocou notas de shoyu, caldo de carne e, pasme, cebola. Uma hipótese levantada foi autólise. Uma pena.

Steinbier? (Lager escura cuja fervura teve participação de pedras aquecidas): Aromas interessantes de licor e de chocolate, mas ficou com residual adocicado desequilibrado (problema de fermentação foi uma hipótese levantada) e álcool fora de contexto.

Imperial Rye IPA com mel e cataia: Boa cerveja, onde se percebe bem o mel e amargor interessante. Também ficou no meu top 5.

American IPA com dry hopping de maracujá: a primeira garrafa teve gushing (esguicho) vigoroso, resultado provável de contaminação. O mesmo, em menor intensidade, ocorreu na segunda garrafa. Na boca, havia sinais de início de contaminação. Boas notas de maracujá, mas amargor poderia ser mais destacado. Infelizmente, contaminação atrapalhou.

Blonde Ale com cachaça e dry hopping de boldo: Boa cerveja, com bom balanço entre o herbal do boldo e a levedura belga. Cachaça, porém, poderia ter ficado ligeiramente mais evidente. Quem sabe usando uma variedade com maturação em madeira que deixasse sua marca de forma mais potente?

Dark ale com doce de leite e ervas: os ingredientes não ficaram evidentes na receita; o torrado cobre as sutilezas da cerveja. Havia sinais de oxidação e álcool excessivo também.

Black IPA com pimenta rosa: bom amargor, mas tinha sinais de oxidação do lúpulo utilizado e “aspereza” forte demais na língua (quem sabe mudando um pouco a composição de maltes, com um pouco mais de malte chocolate?). A pimenta, que deveria dar mais notas de aroma que de picância, não apareceu.

Red Ale com goiabada: infelizmente as duas amostras testadas tiveram gushing. Sinais evidentes de contaminação, acético e oxidação.

Witbier com pequi: antes mesmo da abertura da garrafa, era possível perceber que cerveja se dividiu em duas densidades bastante claras. A do fundo da garrafa era branca e de aparência leitosa. A do alto, mais translúcida. É uma wit muito boa, com boa condimentação, carbonatação e uma acidez média e bastante agradável. Mas o pequi não apareceu nem no aroma, nem no sabor. Talvez fosse o caso de trocar o ingrediente.

Tripel com polpa de cajá: faltou potência de corpo, álcool, cítrico e condimentado para ser uma tripel. Assemelhava-se mais a uma blonde ale. Cajá, contudo, estava bastante presente tanto no aroma quanto no sabor. Nota terrosa (casca ou miolo da fruta), porém, atrapalhou um pouco. Espuma também teve formação prejudicada.

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