Paladar

Anderson Valley: onde os fracos não têm vez?

13 janeiro 2010 | 22:41 por Roberto Fonseca

O 'beer' (bear + deer), mascote da Anderson Valley. Reprodução do site da cervejaria

Como o leitor atento do blog bem deve ter acompanhado, a “invasão” americana ao mercado cervejeiro tupiniquim começou há duas semanas, com a chegada de seis receitas da Anderson Valley, da Califórnia, trazidas pela Tarantino. Já tinha provado a Oatmeal Stout deles no evento com os produtores americanos no Frangó, em junho, e achado boa. No último sábado, voltei ao mesmo Frangó, por ora o único bar a vender a marca na capital (há, ainda, o Cervejarium em Ribeirão Preto e a promessa de início rápido de comercialização na rede Sam’s Club do Wal Mart), para inspecionar o sexteto.

Ficha Anderson Valley Oatmeal Stout

Ficou com água na boca?

Ficha Anderson Valley IPA

Depois da degustação (num pulo rápido de tempo…hehehe), vieram as conclusões. A primeira é que, de fato, e como apontam degustadores em sites de avaliação internacionais, as melhores crias da Anderson Valley são aportadas por estas bandas mesmo a Hop Ottin’ IPA, uma india pale ale nos padrões de superlupulagem (e complexidade de aromas e sabores) americana, e a Barney Flats Oatmeal Stout, que, apesar de não tem a mesma potência alcoólica da IPA (5,8% contra 7%), apresenta corpo bastante denso. E é, por ora, a única stout com aveia disponível comercialmente no Brasil, depois que a finada Emmery, do Rio de Janeiro, deixou de produzir a sua em 2005/2006.

Apesar disso, acho que o “reinado” da IPA, tanto como cerveja mais lupulada entre as comerciais brasileiras (tem 80 unidades de amargor, contra cerca de 10 de uma lager industrial) quanto como IPA de aromas e sabores destacados, pode acabar logo. Não que não seja uma bela cerveja – de fato, o é, e me agradou bastante. Mas, no próprio evento do Frangó, tive a oportunidade de provar outras americanas do estilo, como a O’Dell, que levam vantagem nos detalhes e são ligeiramente mais potentes. E, uma vez aberta a porteira do amargor, a tendência é que outras IPAs desembarquem por aqui, embaladas pela aceitação do público. Soube, no Frangó, que a IPA tem sido a mais procurada das Anderson Valleys. Partindo dessa lógica, grosso modo, tende a prevalecer a “lei do mais forte”, onde a mais lupulada ou mais amarga tem a preferência do paladar. Nesse sentido, a Oatmeal Stout talvez tenha uma vantagem, a não ser que tragam a Yeti, mais alcoólica e potente que ela – e realmente muito boa, pelo que provei no evento dos americanos.

Ficha Anderson Valley Amber Ale

Nem tudo que é mais forte, porém, é melhor. Mais singela que as “colegas”, a Amber Ale me chamou atenção justamente por ter um belo equilíbrio entre malte e lúpulo, doce e amargo, além do teor alcoólico. No fundo, é o que se espera de uma boa cerveja: balanço, mesmo nas receitas mais “extremas”. Por isso, ganhou, no meu conceito, mais pontos que as colegas.

Ficha Anderson Valley Pale Ale

Ficha Anderson Valley ESB

Já a Pale Ale e a ESB não me causaram a mesma boa avaliação das três primeiras. Acho que a Pale Ale poderia estar com algum problema na garrafa degustada, pois os aromas não foram tão intensos quanto imaginava. Na outra ponta, achei a ESB com amargor acima do estilo, “áspera” até, além de ter o álcool um pouco dissonante. Avaliações pessoais à parte, ainda são bem melhores que muitas cervejas nacionais.

Ficha Anderson Valley Wheat Beer

Já a Wheat Beer realmente não agradou. Não é uma weissbier alemã, pois faltam-lhe aromas de banana e cravo. Possui lúpulo no aroma, mas ao mesmo tempo o adocicado poderia ser um pouco menor ou mais equilibrado. A impressão que ficou foi da Celebration Verão da Baden Baden (que a própria cervejaria dizia ser uma Wheat Ale de inspiração americana, não uma weissbier) com mais lúpulo.

Depois de todo esse blábláblá, se sua mente ainda estiver sendo martelada pela pergunta: “Mas que diabos é aquele bizarro urso com chifres ali em cima?”, aqui vai a explicação: trata-se do “beer”, uma mistura de urso (bear) com cervo (deer), e seu nome é Barkley. Simpático – lembrou-me uma versão etílica do urso Smokey, aquele que apagava incêndios na floresta -, ele se junta à legião de mascotes cervejeiros, como o urso bolivariano da Colorado, o elefantinho cor-de-rosa da Delirium Tremens, o duende da La Chouffe e o gnomo da Urthel.