Paladar

Davok: cara nova no Uruguai

23 janeiro 2010 | 20:45 por Roberto Fonseca

Músicos se apresentam no Shannon Pub em Montevideo, que serve chope Davok. Nota-se que o flash foi atordoado pelo rock and roll e não disparou no momento certo. Foto: Roberto Fonseca

Embora não tenha direito a um recesso de final de ano tão extenso quanto o das classes política e judiciária, arrumei um tempinho no apagar das luzes de 2009 para viajar ao Uruguai. Entrei no avião sabendo que poderiam ser dias de desalento cervejeiro; afinal, os produtos fermentados mais conhecidos de nossos vizinhos são os vinhos tannats e as cervejas Patricia, Pilsen e Norteña, distribuídas em larga escala aqui pela Ambev. Me restavam, com base nas pesquisas e informações colhidas com amigos, dois consolos: a ainda embrionária cena microcervejeira uruguaia e as marcas importadas, que teriam, ainda segundo relatos, boa diversidade e preços convidativos.

Depois de passar a primeira refeição no Mercado do Porto regada a Patricia (e olha que a parrilhada teve um desempenho hercúleo na missão árdua de agradar por si só e, ao mesmo tempo, compensar a falta de sabor da cerveja), à noite rumei com a Gi para o The Shannon Irish Pub, no centrinho de Montevideo, para onde voltei, em um “bis”, dias depois. O local tem bom fundo musical – rock and roll, ao vivo ou com alguns hits antigos, mas bem melhores que o ‘putzputz’ dos bares vizinhos. Lá, são servidas as duas únicas produções microcervejeiras uruguaias: a Mastra e a Davok. Como a primeira marca é vendida em garrafa, decidi degustar as três versões dela em casa, partindo direto para a outra.

Ficou com água na boca?

Embora a Davok tenha começado as atividades em fevereiro de 2009, o projeto de sua criação surgiu em 2006. Naquele ano, Mariana López estudava bioengenharia e, ao estudar a ação das leveduras na produção de cerveja, decidiu se embrenhar na produção da bebida com mais quatro amigos. “Procurando informações na internet, achamos o fórum dos cervejeiros caseiros do Uruguai, onde nos ensinaram a montar os equipamentos e a produzir as primeiras receitas em levas de 20 litros”, diz Mariana. Segundo ela, as produções fizeram sucesso e passaram a ser pedidas por donos de bares de Montevidéu para venda, o que levou ao passo seguinte: a abertura da fábrica, que levou um ano. O Shannon, conta, foi um dos primeiros clientes e vende uma cerveja exclusiva da marca, a Dunkel (uma cerveja escura de trigo). Na segunda ida ao pub, pedi a “tábua da Davok”, com quatro cervejas: English Pale Ale, Dunkel, Oatmeal Stout e a St. Patrick’s, verde. Logo após o pedido, o garçom informou que, infelizmente, não havia a cerveja “verde” – na verdade a English Pale Ale com corante. Fiquei feliz, já que não aprecio cervejas com corantes, e ainda ganhei um “bis” da dunkel. Passando ao copo, a ordem de degustação ficou: English, Dunkel, Dunkel e Oatmeal:

Os chopes Davok: da esquerda para a direita, English Pale Ale, Dunkel, Dunkel (o bis foi porque, felizmente, não havia a cerveja "verde" com corante para o kit degustação) e Oatmeal Stout. Foto: Roberto Fonseca

1) English Pale Ale (5%): cor castanho-clara, avermelhada, translucidez média a alta. Espuma bege clara, de formação quase nula e duração idem. Aroma de malte caramelo, algum tostado, nota muito suave frutada, leve lúpulo cítrico. No sabor, lúpulo suave, malte, adocicado, leve tostado, final seco, amargor médio, corpo médio a baixo, carbonatação baixa. Levou 3,2 em 5; tem méritos por fugir da mesmice da tropical lager que domina o país, e tem carbonatação de ale inglesa, mas falta um pouco mais de frutado no aroma e, também, mais diversidade de lúpulos.

2) Shannon Dunkel/Dunkelweizen (6%) : Cor preta sólida, translucidez zero (ao menos na luz ambiente). Espuma não avaliada (não foi servida com espuma). Aroma levemente torrado, com notas de chocolate, caramelo e algum café. No sabor, leve torrado, café, final seco e torrado, com algo de chocolate, carbonatação média a baixa, amargor idem. Levou 3,0 em 5, porque tem boas notas torradas, de chocolate e café, bem equilibradas, mas, para uma cerveja negra de trigo, faltaram aromas e sabores mais afeitos às weiss.

3) Oatmeal Stout (5%) : Cor preta sólida, translucidez zero. Espuma não avaliada (não foi servida com espuma). Aroma e sabor de malte caramelo, leve torrado, nota suave de café e leve lúpulo cítrico. Carbonatação média a baixa, corpo médio a alto, final de malte torrado e algum lúpulo, amargor médio. Levou 3,7 em 5, por ter belo equilíbrio e bom corpo, mas havia notas de diacetil (amanteigadas) no aroma.

Conclusão: os caras são muito bem intencionados, e estão a anos-luz de vantagem gustativa das industriais locais, mas acho que esbarram em alguma dificuldade. Chutaria um acesso não muito simples a matérias-primas. Mas toda cena cervejeira precisa dar seu primeiro passo. O palpite foi confirmado dias depois por Mariana, em resposta ao meu e-mail. “No nível caseiro, não há problemas, se conseguem equipamentos e insumos em pequenas quantidades. Mas, no nível industrial, se complica o abastecimento de maltes especiais e lúpulos. No Uruguai não há vendedores desses insumos. Nós mesmos temos de importar quase tudo, menos o malte-base que se compra por aqui”.

Com as vendas em crescimento, a Davok ainda lançou, em setembro, uma Irish Red, ainda não disponível no Shannon, e tem planos de ampliar a carta. Uma das ideias é oferecer cervejas exclusivas a bares que vendam um mínimo de litros da marca por mês. Da minha parte, desejo sorte aos hermanos uruguaios, porque no bom caminho eles parecem estar. Resta saber se o público vai dar a “base” para que a cervejaria se desenvolva.

Logotipo da cerveja Davok. Reprodução

Quanto às importadas, má notícia. A diversidade delas, segundo o pessoal do Shannon, foi abruptamente reduzida com o fim da importação das britânicas Broughton e Belhaven. Pelo que constatei, há as muito boas belgas Duvel e Chimay, as boas alemãs da Paulaner/Hacker-Pschorr, a mexicana Negra Modelo (cujo elogio que posso fazer é sobre a garrafa, bonita), DAB e outras cervejas sem muitos predicados. Outro problema é o preço: como tudo no Uruguai, as cervejas parecem tem aumentado consideravelmente nos últimos dois anos. Claro que é uma ótima pedida tomar uma Duvel a 155 pesos em um bar (o equivalente a cerca de R$ 15). Mas as Chimays no mercado tinham diferenças pequenas de preço em relação ao Brasil. Melhor tentar nas zonas francas que fazem divisa com nosso país.

Sobre as uruguaias que encontramos no Brasil uma curiosidade. A mais conhecida delas por aqui, a Norteña, é o “patinho feio” do trio no país de origem. Andei razoavelmente por Montevideo, La Pedrera, Punta e Sacramento e não vi nenhum bar com “bandeira” Norteña; nos supermercados, ela fica na parte debaixo da gôndola e da geladeira. A briga é mesmo entre Patricia e Pilsen. Há uma quarta cerveja local conhecida, a Zillertal, que reputava como melhor que as demais, mas que, em sua terra natal, não agradou. Ouvi falar, ainda, de uma marca chamada Blocker, que seria feita em Paysandu por ex-cervejeiros da Norteña, mas aparentemente fui um dos poucos, já que todos a quem perguntei por lá jamais tinham tomado conhecimento do produto. Uma boa surpresa, por outro lado, foi que a Heineken lá é vendida em litrão, produzida na argentina, e mantém as boas características da nossa versão (arriscaria dizer até com um pouco mais de amargor).

Fermentadas fora, a boa surpresa da viagem foi a Uvita, servida no histórico (e, porque não, folclórico) Fun Fun, a alguns metros do Mercado do Porto. Mais que centenário, o local serve a bebida adocicada e, aparentemente, não muito alcoólica que virou instituição uruguaia. A receita, porém, é segredo. Devia ter trazido uma garrafinha na mala…