Paladar

Cinco motivos para comemorar (e cinco para se preocupar com) a cerveja brasileira

05 junho 2012 | 16:00 por Roberto Fonseca

Logotipo criado pelos Blogueiros Brasileiros de Cerveja para festejar a data (Ilustração: Bruno Couto/Site Eu Bebo Sim)

 

Bem, nobres leitores do blog. Se vocês gostam de cerveja, hoje é dia de festejar. É o primeiro ano em que se comemora o Dia da Cerveja Brasileira, iniciativa do grupo Blogueiros Brasileiros de Cerveja para celebrar as boas produções nacionais. A data escolhida marca o nascimento de Rupprecht Loeffler, o finado cervejeiro da Canoinhense (ele faleceu em fevereiro de 2011, aos 93 anos), possivelmente a mais longeva microcervejaria brasileira, anterior até mesmo ao conceito de micro – foi criada em 1908, e comprada pelos Loeffler nos anos 20. Mais do que a história, porém, a data celebra a ascensão das microcervejarias brasileiras, em quantidade, qualidade e reconhecimento no exterior, com medalhas em torneios internacionais.

Ficou com água na boca?

Nem tudo, porém, são flores (de lúpulo). A comemoração também ocorre poucos dias depois de o governo anunciar uma nova tabela de impostos para cervejas, que atinge mais pesadamente as microcervejarias. Mas também as grandes do setor se preocuparam e criaram uma entidade para defender seus interesses – coisa que os pequenos não fizeram. Há outros problemas, como falta de constância nas produções e de criatividade nas receitas.

Por isso, além de comemorar, resolvi propor uma reflexão no Dia da Cerveja Brasileira, tentando analisar os dois lados da questão. Apesar do cabalístico número 10, a lista é aberta. Aceito sugestões e lembranças de itens que possa ter deixado passar. Vamos aos fatos:

PARA COMEMORAR

1) Quantidade: É provável que nunca antes na história desse País tenhamos contado com tantas microcervejarias em atividade. Embora, por questões de logística, a maior parte ainda se concentre no eixo Sul-Sudeste, há produtores com suas micros no Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Além de diversificar o mapa cervejeiro, ainda dá a possibilidade de o consumidor ter cerveja “fresca” mais perto de casa.

2) Novidade: algumas poucas cervejarias apostam em receitas e ingredientes diferentes para se destacar no mercado. Inspiração nas escolas americana (a mais forte do momento, com receitas extremas), belga e uso de adjuntos locais (frutas e afins) são alguns dos exemplos. Também é possível perceber, em alguns casos, “aproximação” maior, em termos de qualidade, entre receitas nacionais inspiradas em outras escolas e os “originais”. Afinal, a novidade também pode ser uma boa cerveja de estilo tradicional.

3) Qualidade do processo: item bem lembrado em debate com o mestre-cervejeiro Paulo Schiavetto outro dia. Ele citou dois pontos importantes que avançaram nos últimos anos: qualidade de equipamentos (melhoria em enchedoras de garrafas, moinho de malte e laboratório nas cervejarias, por exemplo) e qualidade de pessoal, com cervejeiros mais treinados e com mais estudo e experiência.

4) Reconhecimento no exterior: Mais cervejas e cervejarias passaram a receber medalhas em competições internacionais. Embora ainda não tenhamos visto uma micro obter ouro na World Beer Cup, o mais concorrido dos torneios cervejeiros, já conseguimos bons feitos, em especial com a Eisenbahn e a Bamberg, mais premiadas lá fora e detentoras das cervejas com mais medalhas, respectivamente a Dunkel e a Rauchbier.

5) Repercussão: Certo, esse quesito ainda avança lentamente, mas é inegável que o assunto cerveja e, mais particularmente, “cerveja de qualidade”, se tornou muito mais comentado do que nos últimos cinco anos. E não só por especialistas. Um reflexo disso é o aumento de oferta de rótulos nos supermercados, em maior escala, e em bares e restaurantes, em menor proporção. Blogs, sites e outras publicações também ajudam a ampliar o debate.

PARA SE PREOCUPAR

1) Falta de organização: Apesar do crescimento do mercado e do número de produtores, as microcervejarias brasileiras ainda não conseguiram se organizar em torno de uma associação ativa. Isso se reflete em questões como mobilização para cobrança de melhorias tributárias e até em organização de concursos de micros.

2) Falta de criatividade: Parece contraditório falar em falta de criatividade tendo elogiado justamente a inovação na lista de cima. Mas, como eu disse lá, esse movimento ainda é restrito a muito poucas micros. A maioria, infelizmente, ainda vive de  “lager sem graça similar às industriais + cerveja escura + cerveja de trigo”. E quem sai desse trio, às vezes, fica sem coragem de seguir um estilo à risca, como as India Pale Ales, por exemplo, produzindo receitas com menos amargor do que o devido (mesmo para a versão inglesa do estilo).

3) Constância de produções: apesar de todas as inovações técnicas, ainda há problemas em produções micros engarrafadas e, principalmente, em chope. Neste último caso, a responsabilidade – grande – também é do ponto de venda. Infelizmente, não é raridade encontrar chopes nacionais de micros oxidados ou vencidos em bares. Em um mercado onde muita gente ainda está provando cervejas de micros pela primeira vez, esse tipo de situação pode prejudicar bem o conceito das artesanais como um todo.

4) Impostos e Preços: Principal reclamação de qualquer dono de microcervejaria nos dias de hoje. Sem poderem se beneficiar do Simples, as micros estão vinculadas a um sistema de tributação baseado no preço final do produto. Ou seja, receitas mais elaboradas e custosas pagam mais. Há quem aponte que os produtores repassam os aumentos ao público, e não arcam com prejuízos. Mas é inegável que, aumentando os preços, o cervejeiro também corre o risco de ver sua clientela diminuir. Como bem lembrado no comentário de um dos leitores, o preço também é motivo de preocupação para os fãs de cerveja – e os próprios produtores. Uma hora ou outra a tendência é que se estabeleça uma “nota de corte”, seja pelo lado financeiro do consumidor, seja pela relação custo benefício de cada marca.

5)  Falta de atenção aos detalhes além da cerveja: Nem só de boas receitas vive uma cervejaria. Ainda estamos engatinhando na questão de qualidade de rótulos – basta dar uma espiada nas gôndolas de lojas e empórios para ver a diferença entre o visual das cervejas nacionais e de algumas importadas. Propaganda não é feita apenas com base em campanhas milionárias de tevê; às vezes, gestos simples podem render um bom retorno. Li outro dia no Ambitious Brew, livro que conta a história das micros americanas, que, há algumas décadas, uma delas começou a comprar camisetas por US$ 0,50, imprimir a letra que era logo da marca e vender a estudantes universitários por US$ 1. Como muitos dos alunos não tinham muitas posses mas adoravam cerveja, a marca logo passou a ser usada em todo o câmpus, gerando uma publicidade local bastante interessante.

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