Paladar

Impressões de um juiz cervejeiro no Brasil

25 novembro 2011 | 17:26 por Roberto Fonseca

Gordon Strong, do BJCP, durante visita a Sâo Paulo (Foto: Carolina Oda/Arquivo Pessoal)

Como alguns de vocês devem saber, circulou nos últimos dias pelo Brasil Gordon Strong, juiz cervejeiro (sim, existe essa categoria, e não, o trabalho dele não é só uma maravilha…) e presidente do Beer Judge Certification Program (BJCP), entidade norte-americana cujo guia de estilos é usado como referência em concursos da bebida no mundo todo. Depois de passar por Blumenau, no Festival Brasileiro da Cerveja, e por Ribeirão Preto – onde penou com o calor de 37º C -, ele esteve em São Paulo para uma “saideira” antes de rumar para a Argentina. Na capital paulista, passou pelo Empório Alto dos Pinheiros, pela Cervejaria Nacional e pelo Frangó, onde o encontrei para uma conversa. E tomou muitas cervejas artesanais locais. Depois de toda a experiência, seguem algumas de suas impressões.

As favoritas: pela ordem, ele citou três. A primeira foi a gaúcha Green Cow IPA, da Seasons, de Porto Alegre (RS). Segundo Strong, ela poderia tranquilamente ser vendida hoje nos Estados Unidos como American IPA, por ser uma cerveja equilibrada, mas com uma marca forte. Já provei a cerveja no #degustwit há algumas semanas, e de fato é muito boa. Ainda na opinião dele, muitas cervejas brasileiras que lhe foram apresentadas como india pale ale não tinham defeitos e eram até boas, mas não poderiam ser classificadas como esse estilo. A segunda da lista de Strong foi a Colorado Vixnu, recém-lançada Double India Pale Ale da cervejaria de Ribeirão Preto – Strong conta que a tomou bastante fresca, com o barril saindo da fábrica para o evento em que compareceu em Ribeirão, e que ela agradou. A terceira da escalação do americano foi outra marca da Colorado, mas com uma “covardia”: uma Ithaca, Imperial Stout com rapadura preta, que tinha três anos de adega.

Ficou com água na boca?

O mercado brasileiro: Strong disse que, de todas as cervejas que tomou, não jogou nenhuma fora por defeitos graves, o que, conta, já teve de fazer nos Estados Unidos. Ele elogiou as criações locais em geral, tanto em termos de qualidade básica como de ousadia.

A ressalva: o juiz do BJCP, porém, disse que, mesmo no festival de Blumenau, as cervejas foram servidas muito geladas, o que tira seu equilíbrio – citou como exemplo a perda de “potência aparente” do malte no aroma e sabor a baixa temperatura. “É um problema sério. Imagine que lhe pedem para analisar tecnicamente a pintura da Monalisa e, quando você começa a tarefa, apagam as luzes. Impossível!”

Críticas ao BJCP: Há alguns meses, houve um manifesto no Brasil criticando o que se chamou de “obsessão” nacional pelo guia de estilos do programa norte-americano. Não sei se outros a fizeram, mas, pela ligação de Strong com o BJCP, a pergunta era inevitável. O que achava disso? Ele brincou: “Há alguma tradução de ‘guidelines’ (algo como ‘linhas guia’/ N. do blog: leitores gentilmente sugeriram a opção “diretrizes, normas de procedimento”) para o português que dê a entender que se trata de uma obrigação imutável? Porque o que fazemos é justamente o que está escrito ali, guidelines. Há um item no nosso site que explica essa dúvida.” Ele defendeu a necessidade de definições de estilos em concursos. “Sem isso, teríamos apenas duelos de produtores que têm mais fãs. Além disso, o BJCP tem uma categoria ‘livre’, que pode englobar estilos diferentes dos tradicionais.”

Inclusão de marcas brasileiras no BJCP: Strong disse que planeja, sim, citar mais marcas nacionais como referências de estilo na próxima atualização do BJCP. Fez, afirmou, algumas anotações a respeito de certas cervejas que considera relevantes. Mas mudanças no guia devem sair na praça apenas em 2013.

Falha no sistema: perguntei como o BJCP tratava o caso da Schneider Original, cerveja de trigo alemã associada à “salvação” do estilo no Século 19, mas que hoje, mais escura que o padrão das Hefe Weissbiers Helles, não se enquadra no estilo do guia norte-americano. Strong admitiu que se trata de um problema, e que já defendeu inclui-la na categoria como exemplo da marca, mas com a ressalva de cor. O resultado prático até agora, porém, é inconclusivo.

Epílogo: Levei para ele degustar duas cervejas: uma Eisenbahn Dama do Lago, com três anos de garrafa, e uma Canoinhense Nó de Pinho. A primeira, na qual tinha grande expectativa, estava, porém, bastante oxidada, dominada pelas notas de caramelo. A segunda, em que já esperava uma careta apesar das explicações históricas, gerou uma pequena surpresa, pelas fortes notas de cereja no aroma e sabor. Strong apreciou os elementos mais “distintos” da Nó de Pinho, mas disse que esperava mais corpo e menos doçura residual.

Tags: