Paladar

Melhores de 2012, parte 106: Bob

13 fevereiro 2013 | 14:30 por Roberto Fonseca

Foto: Arquivo pessoal

Roberto Fonseca, jornalista que escreve sobre cervejas desde 2006, de São Paulo (SP):

1) MELHOR ALE NACIONAL

Ficou com água na boca?

Repeteco de 2011: Seasons Green Cow IPA. Pode não ser a mais amarga, mas ainda assim é uma das melhores do estilo feitas no Brasil. Outro repeteco de 2011: continua cara demais em SP. Sugiro à Tarantino, distribuidora da marca, arriscar trazê-la em chope para cá, em “cadeia fria”. Baixaria um pouco o preço e seria interessante vê-la concorrer com outras IPAs na pressão.

2) MELHOR LAGER NACIONAL

Bamberg Bambergerator. É uma das melhores no portifólio da cervejaria de Votorantim, e a versão em chope, servida na festa de final de ano na fábrica, ficou ainda mais interessante. Esqueci de guardar uma garrafa para testar o envelhecimento. Deveria entrar na linha fixa da cervejaria.

3) MELHOR ALE IMPORTADA

Duvel Tripel Hop. Tem sido cada vez mais difícil achar cervejas com lúpulos cítricos que não se tornem cansativas depois de algum tempo. A Duvel, nesta edição de 2012, conseguiu atingir um belo equilíbrio entre alguns elementos trazidos da “original” e o lúpulo da vez.

4) MELHOR LAGER IMPORTADA

Ayinger Celebrator. Sim, poderia ser mais criativo e não repetir uma doppelbock nas categorias nacional e importada, mas esta cerveja alemã saltou bem acima da média. Mesmo estando um pouco aquém da que provei, pela primeira vez, na Alemanha em 2010. Males de viagem…

5) MELHOR CHOPE

Maracujipa, da 2Cabeças. De longe foi o que mais tomei durante o ano. Na maioria das vezes, em boas condições.

6) MELHOR BAR CERVEJEIRO

Empório Alto dos Pinheiros, pela variedade de chopes, garrafas e comida honesta. Mas vale redobrar a atenção com as condições dos chopes.

7) MELHOR CERVEJA CASEIRA

Gostaria de votar na Cafuza, uma black IPA muito boa, mas a tomei em 2013 e isso contraria o espírito da enquete. Fico com a saison com suco azedo de abacaxi produzida pelo Ricardo Rosa (RJ), segundo lugar no concurso nacional das Acervas de 2012.

8) MELHOR CERVEJA DO ANO, AQUI OU LÁ FORA

Goose Island Bourbon County Stout, que repousava havia alguns meses na minha adega (foi comprada em NY no final de 2010). Fanáticos por microcervejarias americanas podem torcer o nariz, ainda mais depois da venda da marca para a AB-Inbev, mas a garrafa que provei (de antes da mudança de proprietários) estava de fato excelente.

9) RÓTULO MAIS BONITO DO ANO

Para responder a esta pergunta, fiz um teste simples. Sentei-me diante de uma gôndola repleta de garrafas de cerveja, a alguns metros de distância, e tirei os óculos. No borrão que se tornou o conjunto de vasilhames, uma marca eu continuava conseguindo distinguir, seja pelas cores, seja pelo logo um pouco maior que os demais. E essa marca era a Rogue, em sua linha garrafas “silkadas”. A beleza, no fim das contas, está nos olhos de quem a vê – ou não. Mas facilidade de chamar atenção e de identificação com o consumidor também são essenciais.

Não a tomei em 2012, mas sugiro a quem se interessa pelo assunto conferir o rótulo da chilena Kross Gran Cru. Ele retrata o aperto de mãos entre um vinicultor e um produtor de lúpulo, cada qual com sua ferramenta de trabalho na mão. Simboliza bem a ideia de associar a receita cervejeira com vinho (na levedura, no barril e na adição de uma fração de vinho do porto).

10) NOVIDADE DO ANO

Tanto quanto boas cervejas, o mercado de micros e artesanais precisa de boas ideias, que extrapolem as receitas. E nisso, creio, o Beer Train da Bodebrown foi o que tivemos de mais inovador. Pega-se um passeio de trem para lá de manjado no Paraná – eu o faço desde que tinha uns 6 anos – e acrescenta-se boas cervejas. Mesmo quem está em outros vagões deve ficar curioso. Mas é preciso dar constância e variedade a essa iniciativa, para que ela não seja um fato isolado. Menção honrosa para o kit single hops da Way.

11) MELHOR FATO DO ANO

Foi o fato de os cervejeiros caseiros que pensam em comercializar as crias terem começado a fazê-lo de forma legalizada, em escala mais ampla. De um lado, há homebrewers que se associaram a microcervejarias para produzir levas de forma fixa (caso da Wäls/DUM Petroleum) ou sazonal, como prêmio em concursos (neste segundo caso, prática mais antiga). Do outro, há iniciativas “solo”, em contract brewing (caso, por exemplo, da Morada Kölsch, do Paraná, ou da 2Cabeças, do Rio) e, modelo mais ousado até o momento, em uma cooperativa cervejeira, a Inconfidentes Cervejas Conjuradas. Sim, o cenário burocrático e tributário é bem árido e com mudanças lentas, mas vender sua cerveja de forma legalizada é o primeiro passo para tentar melhorar a situação.

12) PIOR FATO CERVEJEIRO

Mais um ano se passou e os microcervejeiros não conseguiram criar uma associação de caráter nacional que represente os interesses do setor. Há, felizmente, entidades estaduais sendo criadas e conseguindo bons resultados, como a redução do ICMS no Rio Grande do Sul. Mas, sem uma atuação similar em todo o País, iniciativas valiosas acabam tendo seu poder de fogo bastante reduzido – ou, pior, correndo risco de criar desigualdades regionais. É necessário pensar de forma conjunta o discurso feito aos cervejeiros e aos leigos, a atuação técnica e política em reuniões com o governo e uma pauta de prioridades em Brasília. Para isso, é preciso ter estrutura e pessoas especializadas, itens que vão muito além de boas intenções. A mobilização do momento foi suficiente para questões como a audiência pública do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sobre revisão de normas técnicas envolvendo a cerveja. Mas demandas tributárias, como a redução de impostos para produtores artesanais (e a inclusão das micros no Simples?), vão requerer um grau de articulação bem maior.

PS: Antes que algum engraçadinho diga que isto é um auto voto, respondo que gostaria mesmo é de presidir outra entidade a ser criada um dia. Trata-se da Associação de Pais e Mães de Cervejeiros Artesanais (APMCA), já que alguns dos entraves para a criação de uma entidade nacional dos microcervejeiros poderiam ser resolvidos com puxões de orelha e broncas bem dadas. A quem não entendeu a “piada interna” de cervejeiros, digo apenas que ficarão bem melhor desta maneira…

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