Paladar

O mistério da cerveja de Poirot

13 fevereiro 2012 | 16:13 por Roberto Fonseca

Ellezelloise Hercule Stout (Bélgica, chope)

Produtor: Ellezelloise / Brasserie des Legendes, da Bélgica

Ficou com água na boca?

Importador: Calabar

Preço: R$ 21 o caneco, no Empório Alto dos Pinheiros

Estilo: Imperial Stout

Teor alc.: 9%

Cor: Castanho muito escuro, quase preto, translucidez média a baixa

Espuma: Bege, média a alta formação (início de barril), média duração

Aroma: Malte torrado, café, chocolate, madeira (de brettanomyces ou da anunciada maturação em carvalho alemão? ou dos dois?), levedura, licorosidade, condimentado muito suave

Sabor: Malte torrado, café, chocolate suave, madeira (barril ou brettanomyces?), final bastante seco, álcool bem equilibrado apesar da potência, acidez perceptível mas não exagerada. Corpo médio, amargor idem, carbonatação média a alta.

Nota 4,2 em 5Foge do padrão de imperial stout por ser bem mais seca e pela sensação de madeira (fica a dúvida de sua origem: brettanomyces ou apenas a maturação em barril?). Mas é uma boa cerveja, fácil de beber, e por isso perigosa pelo teor alcoólico. 

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A confusão do garçom não é injustificável: “Hércules?” Não, a cerveja em questão não trata do herói mitológico, embora seja a primeira lembrança que vem à mente. A homenagem é para outro personagem fictício, mas que também tem uma legião de fãs: o detetive Hercule Poirot, que a escritora Agatha Christie fez nascer na cidade de Ellezelles, a mesma que abriga a cervejaria Ellezelloise. Que, por sua vez, “pariu” a Hercule (suponho que a ligação seria muito mais evidente se batizassem a fermentada de Poirot, mas isso poderia gerar sérios problemas de patente…).

Fundada em 1993, a Brasserie Ellezeloise tem a Hercule como sua mais famosa marca, embora também produza a linha Quintine. Em 2006, ela foi adquirida pela Brasserie des Geants, e a união das duas criou a Brasserie des Legendes. Segundo artigo sobre a Hercule no livro “1001 Cervejas para Tomar antes de Morrer”, a fusão gerou reclamações sobre perda de qualidade das Quintines, mas a Hercule teria escapado consideravelmente bem no processo. Ainda não tomei as Quintines, mas a “cerveja de Poirot” agradou bastante na versão chope, por ora disponível apenas no Empório Alto dos Pinheiros, na capital. Há, para quem não puder degustá-lo lá, a versão em garrafa à venda também.

Apresentado pelo produtor como “stout belga”, tem força alcoólica para ser uma imperial stout, mas possui algumas diferenças com representantes do estilo encontradas por aqui. Uma delas é o fato de ser mais seca e com notas amadeiradas bastante presentes, que chegam a se impor sobre o malte no início do gole. A cervejaria informa que a Hercule é maturada por dez dias em barris de carvalho alemão, mas fiquei na dúvida se o elemento amadeirado na cerveja vem dessa maturação ou da presença de brettanomyces (tipo de levedura). Há, claro, boas notas de malte torrado, café e chocolate, mas estas são previsíveis.

Resolvi iniciar investigação sobre o “mistério amadeirado” com fontes cervejeiras nacionais e no próprio local dos fatos (a cervejaria). Por aqui, os especialistas avaliam que dez dias é pouco tanto para que a madeira ou o brettanomyces deixem uma marca. O bretta (vamos chamá-lo assim, para facilitar) poderia continuar agindo na cerveja mesmo após ela ir para o barril ou garrafa. Logo que chegar a um desfecho – mesmo que seja um delírio da parte deste que escreve -, anuncio aqui. Alguém mais pode contribuir com pistas?

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