Paladar

OS MELHORES DE 2009, parte 19

06 janeiro 2010 | 19:00 por Roberto Fonseca

Marco Falcone, da Falke Bier, foi um dos recebedores do Prêmio Paladar 2009, conferido à cerveja artesanal como produto do ano. Foto: Renato Luiz Ferreira/AE - 25/11/2009

Ok, ok, bem ao estilo mineiro, Marco Falcone deu aquela “puxada de sardinha” para suas crias nascidas na Falke Bier, em Ribeirão das Neves (MG). Mas é possível dar um desconto. A Falke Vivre pour Vivre, por exemplo, já foi citada por vários votantes da enquete. E realmente trata-se de um produto inovador, que combina a acidez de uma safra de Falke Monasterium com jabuticabas. O blog também o “absolve” por fazer os leitores passarem vontade descrevendo as maravilhas da Samuel Adams Triple Bock, inacessível por aqui. Veja como Falcone votou:

1) A ‘top das tops’ de 2009
Samuel Adams Triple Bock (dos EUA), uma coisa fantástica; textura de óleo de motor, cerveja para molhar a ponta da língua e espalhar pela boca afora e ficar pensando: “o que é isto!”

Ficou com água na boca?

2) Melhor ale
Pode parecer patriotada, mas tenho que votar na Estrada Real IPA by Falke Bier. Trata-se de uma autêntica IPA, subestilo English, ou seja, o malte é marcante e isto é uma característica intrínseca das cervejas da Falke. Lupulagem equilibrada e nosso DNA aparecem na cerveja, tornando-a única (refiro-me ao tratamento térmico dado ao malte aqui na Falke Bier). Mas estaria muito bem representado pela Indica da Colorado, que também é uma IPA subestilo American, que privilegia mais a lupulagem do que malte, fantástica cerveja. Não posso deixar de citar também a Wäls Dubbel, excelente trabalho iniciado pelo saudoso Tácilo Coutinho e continuado pelos irmãos Tiago e José Felipe e o pai Miguel Carneiro e ainda, a Alt da Bamberg, magnífica.

3) Melhor lager
A Export, da Abadessa (do Rio Grande do Sul). Herbert Schumacher sabe tudo e faz a melhor helles do Brasil. Gostaria de citar também nossa Falke Bier Ouro Preto, uma Schwarzbier da gema, com o malte torrado na Falke.

4) Destaque nacional
A Vintage, do guerreiro Marcelo Carneiro da Rocha da Colorado. Tenho que citar também a Rauchbier do Alexandre Bazzo, premiada que foi no European Beer Cup. Quero fazer justiça também ao Paulo Schiaveto com sua Blonde Medieval (da Backer, de Minas Gerais), não só muito gostosa como com bela produção temática promovida em sua embalagem. Vai também um elogio à deliciosa Quadruppel da Wäls.

5) Destaque importado
Duvel Belgian Golden Ale. Mas fica o destaque para as artesanais americanas que estão chegando. Muitas delas pudemos apreciar durante a Brasil Brau 2009, apresentadas no Frangó do Cássio Píccolo. Que show de lúpulo destas ianques!

6) Novidade cervejeira
De novo puxando a sardinha para meu lado. A Falke Vivre pour Vivre é algo inusitado que faz valer a pena o fato de ser cervejeiro e ter uma microcervejaria. Há três anos, notamos que uma leva de Monasterium estava com acidez acima do desejável e, em uma análise, detectamos fermentação láctica. Aí seguramos o lote e colocamos em maturação nas garrafas. Três anos mais tarde, aplicamos o método utilizado no estilo Sour/Fruit Beer, onde se combina a frutose com esta cerveja acidificada. Depois de alguns testes detectamos que a jabuticaba oferecia um resultado perfeito. Mas não para por aí: sua roupagem também ganhou toques de novidade. Engarrafada em vasilhame de champanhe reserva, seu rótulo é um cartaz de cinema reestilizado, em uma alusão ao filme “Vivre pour Vivre”, do cineasta Claude Lelouch, de 1967 e até a música do filme foi mixada para harmonizar com a cerveja. O resultado é impressionante, sem dúvida, uma novidade no País.

7) Fato cervejeiro
Em um ano incrível para a cultura cervejeira como foi 2009, é muito difícil citar apenas um fato. Poderia tranquilamente indicar as visitas dos gurus internacionais como Randy Mosher, Conrad Seidl e Charlie Papazian, poderia falar das valiosas edições do Extra Malte (palestras e debates com cervejeiros e figuras de destaque ligadas à bebida) em Porto Alegre, falaria do tour cervejeiro do Brejas às micro de Belo Horizonte. Citaria os concursos e encontros cervejeiros que ocorreram em todo o País e da inauguração de vários restaurantes e bares de cultura cervejeira. Da Cilene (Saorin, mestre-cervejeira) trazendo o curso de Beer Sommelier da Europa para o Brasil e jamais omitiria o IV Concurso Nacional de Cervejas Artesanais conduzido com maestria pela Acerva Carioca. A expansão do movimento Acerva é também um fato cervejeiro relevante. A luta das microcervejarias que se uniram e foram tentar buscar no governo federal uma revisão contra a brutalidade tributária que estamos vivendo. Devemos lembrar também a Larousse da Cerveja, primeira obra sobre a bebida desta enciclopédia, publicada em língua portuguesa e por um brasileiro, o Ronaldo Morado. E ainda, o aprimoramento das publicações cervejeiras, como a Beer Life, excelente veículo de nossa cultura. Temos que falar também do belo exemplo tributário de Santa Catarina, com a redução do ICMS. Tivemos também diversos avanços, temos que citar o programa de rádio “Pão e Cerveja”, da rádio CBN BH, conduzido pela competente jornalista Fabiana Arreguy, do qual tivemos a honra de participar, protagonizando o primeiro programa do gênero no rádio brasileiro.

Tivemos ainda um evento que revelou o nível evolutivo em que nos encontramos – a Brasil Brau 2009. Mais de 20 Micro Cervejarias reunidas, as Acervas, todas juntas em um evento internacional em São Paulo, prestigiado por entidades significativas no planeta, como os produtores de lúpulo dos Estados Unidos e os produtores de cerveja da República Checa, por exemplo. Sem falar no fato de toda a cadeia produtiva da cerveja estar ali reunida. Histórico.
No entanto, gostaria de destacar como o Fato Cervejeiro, o prêmio Paladar 2009. A “Cerveja Artesanal” ter sido escolhida como o PRODUTO DO ANO por um jornal da credibilidade do Estadão vem coroar todo este movimento, sintetiza todos os demais fatos do ano, glorificando uma luta e um momento extremamente valioso para a cultura cervejeira no Brasil.

8) Pior momento cervejeiro
Para abrir o ano, a tragédia da perda do Tácilo Coutinho (Wäls Bier) e para fechar, a ausência do Mestre Cyllas (Cervejaria Trovense). No mais, a avacalhação do governo brasileiro, tentando destruir nosso segmento com uma tributação burra, injusta e despropositada.