Paladar

Saint Sylvestre: força não é tudo

26 setembro 2009 | 20:00 por Roberto Fonseca

Ficha Saint Sylvestre 3 Monts

A declaração pode soar um tanto blasé para quem trabalha com a “bela” vista da Marginal Tietê congestionada, mas passar 11 horas na classe econômica de um avião é de tirar um sujeito do sério. Ao menos um sujeito que não consegue dormir prensado entre duas fileiras de poltronas. Rumo a Paris, com escala em Roma, nem a ordinária (mas ainda assim um pouco melhor que as nossas industriais) Nastro Azzurro servida no vôo da Alitalia me ajudou a pregar os olhos no trajeto. Chegar à capital francesa foi um alívio temporário, até saber que a impoluta empresa aérea havia perdido as minhas bagagens. Mas nem deu tempo de me lamentar muito, pois em questão de minutos deveria chegar à Gare de Lyon para pegar o trem rumo a Perpignan, no sul do país.

Mas logo de cara já conheci a primeira “figura” da viagem: ao abrir a porta da frente do táxi, encontrei no banco da frente um cachorro com cara de estar pouco disposto a ser desalojado. Era Enzo (homenagem ao comendador Enzo Ferrari), cão já velhinho, mas que, segundo o dono (peguei o nome do bicho e não do humano), ainda gostava de desentocar lebres em dia de caça. Essa habilidade eu não sei se ele tem, mas posso jurar que ele apertou, por vontade própria, o botão do vidro elétrico do táxi para poder colocar o focinho para fora e latir para os outros carros, para desespero do dono. Já no trem, provei uma cerveja de abadia francesa sem muita personalidade, mas boa para gastar parte das 5 horas de trajeto.

Ficou com água na boca?

Enzo e seu dono; nem pense em tirar o lugar dele no banco da frente. Foto: Roberto Fonseca

Depois de mais alguns percalços no trajeto, cheguei à pequenina cidade de Banyuls-sur-mer já à noite, faminto e, também, ávido para tomar uma cerveja. As opções eram poucas, pela hora e pelo fato de a alta estação já ter acabado. Resolvi meus problemas com um croque monsieur e uma Pelforth Brune, que, apesar de um tanto adocicada para o meu gosto, tinha bom corpo e sabor. Passei os dias seguintes percorrendo a pé a cidade, mais famosa por seus vinhos, mas fiz algumas descobertas cervejeiras interessantes. A primeira foi uma loja de cervejas de um casal belga, que tinha desde St. Feuillien até as manjadas Leffe. Mas resisti à tentação e me ative às cervejas francesas. Depois, num supermercado Champion local, dei de cara com a St. Sylvestre 3 Monts, a 2,50 euros.

Como já tinha ouvido falar bem dela no guia da cerveja editado pelo Michael Jackson, comprei de imediato. Mas, por uma série de desencontros, só consegui degustá-la já aqui em São Paulo, esta semana. Tenho de confessar que fiquei um tanto frustrado. Até agora, minha experiência com biéres de garde se resumia à linha Jenlain e a alguns exemplares caseiros. Em ambos os casos, sempre preferi as cervejas do estilo mais escuras, com aromas e sabores frutados bem pronunciados e densos. E o exemplar da St. Sylvestre é justamente o oposto disso: feita com maltes claros (creio que só o pilsen é perceptível), ela tem aroma e sabor de grãos e biscoito, mas eles vêm acompanhados de uma pronunciada força alcoólica e uma sensação forte de picante, gerada, creio, pelo fermento, pelo lúpulo (sim, ela é bem amarga e seca) e pela carbonatação. Guardadas as devidas proporções, pareceu-me uma pilsen “turbinada” (embora a 3 Monts seja uma ale e a pilsen, uma lager). Ela é potente, mas não tem aquela profundidade gerada pelo malte nem o frutado originado da ação do fermento. Ficou a sensação de faltar algo mais.

Apesar disso, valeu por matar a curiosidade, conhecer um novo representante do estilo e, de quebra, um novo método de fechamento de garrafas de cerveja: a St. Sylvestre usa rolhas, mas elas têm de ser tiradas com saca-rolha, ao contrário de outros exemplares disponíveis no Brasil, onde basta puxar a cortiça com a mão. No caso da 3 Monts, não seria possível fazê-lo nem que eu quisesse: a rolha ainda vem “prensada” por um anel de ferro.

Ah, quase esqueci de comentar que a 3 Monts não foi a única cerveja que comprei no mercado, tampouco a que provei na França. Mais novidades nos próximos posts…