Paladar

South Beer Cup: como cada um vê o copo (ou a copa)

02 abril 2012 | 12:24 por Roberto Fonseca

PARTE 1: O FATO

Na semana retrasada, de quarta a sábado, ocorreu em Blumenau (SC) o Festival Brasileiro da Cerveja, com palestras, eventos e, principalmente, exposição e degustação de produtos de várias micros do País. Entre quinta e sexta, foi realizada a segunda edição da South Beer Cup, torneio que reúne cervejarias sul-americanas e que pode ser considerado uma espécie de “Copa Libertadores da América” das fermentadas.

PARTE 2: WÄLS, A CERVEJARIA DO ANO NA AMÉRICA DO SUL

Ficou com água na boca?

No sábado retrasado, houve o anúncio dos vencedores do torneio. A Wäls, de Belo Horizonte, foi escolhida a cervejaria do ano na América do Sul, além de ter recebido três medalhas de ouro: como melhor Pilsen; na categoria Imperial Stout com a Petroleum, que leva cacau na receita e é fruto de parceria com os homebrewers da Dum, de Curitiba (PR); e na categoria Especial com a Wäls Brut, feita usando o método champenoise.

Veja os outros vencedores

Opa Bier/On Trade: prata na categoria Pilsen com a Divina/Göttlich, que leva guaraná na receita

Bierhoff (PR): bronze na categoria Pilsen

Bierbaum (SC): ouro na categoria Dunkel e prata na categoria Weiss

Karavelle (SP): bronze na categoria Weiss

Colorado (SP): bronze na categoria Imperial Stout com a Ithaca, que leva rapadura na receita, e bronze na categoria Especial

Bierland (SC): prata na categoria Pale Ale, bronze na categoria Red Ale, prata na categoria Bock

Klein (PR): prata na categoria Pale Ale

Seasons (RS): prata na categoria IPA com a Green Cow, prata na categoria Dry Stout e prata na categoria Red Ale

Way (PR): prata na categoria IPA e prata na categoria Red Ale

Backer (MG): prata na categoria Especial com a Três Lobos

Bamberg (SP): prata na categoria Especial com a St. Michael e bronze na categoria Rauch

Bodebrown (PR): bronze na categoria Especial

Falke Bier (MG): bronze na categoria Schwarzbier

Zehn Bier (SC): bronze na categoria Bock

Eisenbahn (SC): prata na categoria Dunkel

Wensky (PR): prata na categoria Old Ale

Das Bier (SC): bronze na categoria Brown Ale

Houve ainda menções (quando a cerveja não atinge pontuação mínima de medalha) à Mistura Clássica (RJ), na categoria Pale Ale; Way, também na Pale Ale; Bierhoff e Das Bier, na categoria Weiss; Backer, Mistura Clássica e Bierland, na categoria Especial; Bamberg, na categoria Munich; Eisenbahn, na categoria Kölsch; e Way, na categoria Porter.

Na corrida pela cerveja mais premiada do Brasil, Eisenbahn Dunkel (que levou prata na South Beer Cup) lidera, com nove medalhas, seguida pela Bamberg Rauchbier (também premiada no torneio sul-americano, com bronze), com oito. No geral, a cervejaria de Blumenau tem agora 31 medalhas, contra 24 da produtora de Votorantim.

PARTE 3: PONDO O EVENTO NA BALANÇA

Para mim, escrever sobre esse ponto é um tanto insólito, já que não fui ao festival nem ao concurso. Mas ouvi muitos comentários, positivos e negativos, e não dá para ficar alheio à repercussão do evento. Como fonte de referência, sugiro a leitura dos blogs de colegas que trataram do tema, como o Brejas, o Bebendo Bem, o Edu Recomenda (com pílulas de novidades cervejeiras no festival) e o Homini Lupulo.

Por um lado, é muito bacana ter um evento de porte internacional no Brasil. Até agora, havia o concurso nacional das Acervas e algumas competições regionais. Também é bacana o intercâmbio entre cervejeiros que essa competição sul-americana proporciona. A edição deste ano ainda teve medalhas para cervejarias pouco conhecidas do grande público e estreantes em torneios, o que deve ajudar na divulgação de novas marcas. Outro ponto interessante foi a participação de juízes do BJCP – inclusive os primeiros brasileiros nesta categoria – e de cervejeiros americanos conhecidos, como Pete Slosberg e Matt Brynildson, da Firestone.

Mas várias pessoas ouvidas por este que escreve fizeram também uma série de críticas a respeito da organização do evento. Resolvi reunir boa parte delas – as que me pareciam mais sérias  – e enviar ao organizador do evento, o Martin Boan, o que ocorreu dia 27.

Antes de receber as respostas, conversei bastante com ele ao telefone, mas vou seguir o prometido nos e-mails que enviei a ele, de publicar apenas o que me foi respondido por escrito no dia 30. Foi uma parte muito resumida das explicações telefônicas, e que, a meu ver, deixam ainda dúvidas em aberto, que poderão ser dirimidas pelos participantes ou pelo próprio Martin neste espaço. Só abrirei uma exceção à regra do e-mail para usar uma expressão empregada por ele e que resumiria sua visão a respeito da polêmica: “É a situação de estar na floresta e olhar para apenas uma árvore ou olhar para o todo”, afirmou, lembrando que foram 257 cervejas participantes.

Seguem perguntas e respostas:

A Bierland Vienna Lager ganhou medalha na categoria Red Ale. O que ocorreu? Por que uma cerveja lager foi avaliada em uma categoria ale? A definição do nome Red Ale não limita as concorrentes a alta fermentação?
Martin Boan: Só havia uma cerveja no concurso para Red Lager

(Nota do blog: informação recebida de participantes do evento; por telefone, Martin negou que a cerveja estivesse em duas categorias diferentes ou que tivesse tido avaliações diferentes, mas optei por manter a pergunta original feita a ele) O Leonardo Sewald, da Cervejaria Seasons, estava na mesma mesa que julgava receita da própria Seasons. Quando notaram isso, a ficha dele foi desconsiderada. Foi então utilizada uma ficha do Pete Slosberg, que analisava a mesma receita da Seasons em outra mesa, como Especial. O que ocorreu? Por que a mesma cerveja estava em duas categorias diferentes? O fato de uma das notas da Cirilo (corrigido após informação do Sewald) consideradas (do Pete Slosberg) ter sido dada em critério errado não afetou o resultado final?
A ficha dele (Sewald) foi desconsiderada; os outros juízes deram boa pontuação (à cerveja) e ela ganhou medalha. Eu não  posso desconsiderar o trabalho de outros juízes.

Na categoria pilsen, recebeu medalha a Divina, que, segundo informações do produtor, leva guaraná na receita. Ela não deveria competir como Specialty (categoria que permite o uso de ingredientes diversos)? Da mesma forma, a Petroleum, que ganhou medalha como imperial stout, leva cacau na receita. A presença de adjuntos não faz com que as cervejas devessem ser inscritas em Specialty? Outro caso: a Eisenbahn Dunkel foi inscrita como Dunkel, mas em torneios como o European Beer Star, ela concorre como schwarzbier. O que pode ser feito para evitar dúvidas como estas citadas?
Algumas cervejarias fizeram inscrição em uma categoria e isso não pode ser alterado, a informação da categoria é confidencial.  Se um juiz tem dúvida de uma cerveja, deve nos consultar.  Se eles não consultam, nada podemos fazer. Se uma cerveja entra em uma categoria errada e os juízes entregaram medalha, não podemos desqualificar. Os juízes podem consultar se a ficha de entrada (da cerveja no torneio) está certa. Se um Juiz não detectou uma fruta, tem duas possibilidades, cerveja tem pouca fruta…

(Informação recebida de participantes do evento) No caso da Blonde Ale, os jurados julgaram e deram notas finais a 18 amostras em um dia. Mas no dia seguinte, soube que tiveram de avaliar outras 6 amostras e fazer nova somatória para definir vencedores. O que ocorreu?
Blonde Ale não acabou em um dia, outras categorias também acabaram na sexta feira (nota do blog: as avaliações começaram na quinta).

(Informação recebida de participantes do evento) A categoria witbier foi incluída entre as weissbiers? Se sim, por qual razão?
WITBIER não FOI INCLUÍDA ENTRE AS WEISSBIERS

Qual o critério de ordem de avaliação dos estilos? (nota do blog: houve reclamações sobre a ordem colocar estilos mais potentes no começo e, no fim, receitas mais suaves, o que poderia afetar o julgamento)
A competição começa com estilos que têm mais amostras. Se um juiz está cansado, pode pedir intervalo (no original, está o termo “demorar”, mas pelo sentido creio que seja pedir tempo) ou avaliar no sábado. Em outras competições se degustam 40-50 cervejas por dia, na South Beer Cup foram de 17 a 24 amostras.

Poderia fazer uma avaliação pessoal de como foi a edição brasileira da South Beer Cup, quais os principais acertos e o que deve ser melhorado para o próximo ano?
2012 foi um SUCESSO no Brasil, como foi um sucesso na Argentina em 2011. Muitas cervejarias estiveram pela primeira vez em uma competição. Para 2013, estamos fazendo:
– uma aliança estratégica com a World Beer Cup.
– equipe de juízes sênior da South Beer Cup.
– equipe com Marcelo Carneiro da Rocha, da Cervejaria Colorado.

Ainda mandei, após o e-mail, uma pergunta via Gtalk sobre as notas da Bodebrown e da Bamberg na categoria Especial (a Bodebrown teria recebido nota maior que a Bamberg, mas ficou com medalha de bronze, e a micro de Votorantim, com prata), mas não veio a resposta por escrito. Também poderá ser incluída por aqui com o debate sobre o post.

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