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Exportações de cafés especiais devem atingir 600 milhões de dólares em 2013, diz novo presidente da BSCA

13 dezembro 2012 | 02:40 por Patrícia Ferraz

Ainda não aconteceu o boom de cafés especiais no Brasil. Mas ele está a caminho. Ao menos é o que pensa Henrique Sloper, recém-eleito presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, sigla em inglês), para o ano de 2013. Branding, exportações, estratégia são alguns dos termos mais usados pelo empresário, produtor e exportador de grãos orgânicos e biodinâmicos pela Fazenda Camocim, conhecida pelo jacu coffee, cujos lotes são obtidos a partir das fezes dos jacus, pássaros com apetite para as melhores cerejas de café (leia aqui).

 

O carioca Sloper, que assumiu o cargo no dia 6, formou-se em administração e business pela University of California, de Los Angeles (UCLA). “Não venho da cafeicultura, não herdei fazenda da família, não tenho de contentar a pai. Meu olhar é empresarial, tudo foi feito com pesquisa”, diz. Com essa abordagem, ele passa a representar o café especial brasileiro e avisa: “Nosso objetivo é exportar 600 milhões de dólares”. Veja a seguir a entrevista concedida com exclusividade ao Estado.

Ficou com água na boca?

 

FOTO: Divulgação

 

Este é um bom momento do café para assumir a presidência da BSCA?
Já me perguntei várias vezes. Mas acho que é um bom momento, sim. A cafeicultura especial está crescendo e a BSCA está pronta para isso. Temos suporte da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para promover eventos. É uma fase em que vamos investir em branding no Brasil. Além disso, nosso principal concorrente, a Colômbia, passa por sérios problemas de qualidade e de produção. Essa é mais uma oportunidade, pois os torrefadores internacionais já dependem do Brasil: 35% dos grãos verdes são nossos.

 

Tivemos boas colocações em campeonatos mundiais de baristas em 2012. Para o senhor, isso ajuda a cultura do café especial?
Tem um peso importante, mas deveria estar melhor. Deveríamos investir mais na formação desses profissionais, pois precisamos de gente competente para mostrar o café brasileiro. Nós da BSCA damos suporte, mas nosso foco é o café verde. É missão do varejo brasileiro investir, pois a maioria dos baristas ainda é apenas um operador de máquina. O barista deveria atuar como o sommelier, conhecendo todo o processo, desde a lavoura. E transmitir isso para o cliente.

 

É possível observar no mercado nacional uma valorização dos microlotes. Essa é uma tendência que deve ser preservada?
Sim, é irreversível. O café como produto de gastronomia passa pelos microlotes: é um nível de detalhe necessário para uma abordagem gastronômica. Estamos também atendendo uma demanda de microtorrefadores, que buscam grãos muito especiais. Além disso, conseguimos com o microlotes mostrar o trabalho do produtor. É um mercado que merece atenção: o consumidor final ainda não faz ideia do quão trabalhoso é obter uma boa xícara de café, o quanto isso demanda da lavoura, da torra. E ainda pode um barista estragar tudo no final. Veja o caso dos restaurantes. Em muitos deles o café é intragável e poderiam investir em microlotes. Há muito espaço ainda.

 

Dois novos territórios receberam a certificação de Indicação Geográfica Protegida (IGP). Há mais iniciativas?
É um processo complicado, burocrático demais no Brasil. Mas há vários em andamento no Brasil, em Minas Gerais e São Paulo. Em breve, novas certificações devem ser anunciadas. Mas não basta. O IGP indica que naquela área há produtos de qualidade, mas estamos em uma nova fase. Queremos mostrar quem é o produtor e valorizar o grão.

 

E em relação à proibição de importação de café verde?
(Suspira) Esse é um assunto delicado. Vamos ver um boom do café especial brasileiro, de valorização do produto, é uma fase de transformação. Mas sou a favor de um dispositivo seletivo. Temos, sim, de proteger o Brasil do robusta cultivado em grande quantidade, com auxílio de políticas sociais, que dão mudas e fertilizantes de graça aos produtores. Com eles, não há como competir. Mas é um protecionismo burro não permitir a entrada de cafés verdes especiais, o topo da pirâmide. Estamos prejudicando a educação do brasileiro, nos distanciando do primeiro mundo. Precisamos deixar entrar o que é interessante para conhecermos, acabar com a falta de informação. Um dos reflexos disso está no nosso trabalho de torra, ainda primário. Por isso, sou a favor dessa proteção seletiva: diversidade é positiva e ajuda o mercado.

 

Embora haja ainda muita restrição ao robusta, têm surgido algumas iniciativas de grãos especiais. Qual a sua opinião?
Robusta é um café de blend e, honestamente, até bem pouco tempo eu mesmo tinha bastante preconceito. Mas há boas iniciativas, especialmente no Espírito Santo, e confesso que tenho me surpreendido. Mas não sei ainda como esses robusta especiais se encaixariam na estratégia da BSCA. Embora já seja uma realidade.

 

Chamou atenção este ano o grande número de grãos mineiros entre os primeiros colocados do Cup of Excellence. As demais regiões produtoras não deveriam ter mais espaço?
Haverá mudanças, tudo deve ficar mais democrático. Queremos mostrar o Brasil com suas regiões, suas diferenças. Mas Minas ainda é o motor, produz os melhores cafés do mundo, tem tecnologia e pesquisa. E se inscrevem mais nos concursos de qualidade. Mas a metodologia do concurso está sendo revista, sim. Há uma questão de ‘calibragem’, de educação dos juízes para que eles reconheçam outros bons grãos. Eles chegam aqui buscando notas de chocolate, de caramelo. E se deparam com produtos que têm acidez semelhante ao de um café africano.

 

Quais são os projetos da BSCA para os próximos dois anos?
Primeiro, ter uma atuação mais forte nas exportações e, para isso, reforçar a marca do café brasileiro no exterior. Queremos ampliar ainda nossa participação em países como China, Coreia do Sul e Austrália. Vamos participar de muitos eventos, feiras, campeonatos de baristas, apresentando salas de cupping. A projeção da BSCA é de que as exportações de cafés especiais devam gerar uma receita entre 600 milhões e 650 milhões de dólares em 2013.

 

* Atualizado às 15h45

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