Paladar

Sim, é de comer

29 novembro 2012 | 06:55 por Patrícia Ferraz

A ideia parece um tanto simples: se o cacau um dia foi bebida e se transformou em doce para ser mordido (e adorado), por que o café não poderia trilhar o mesmo caminho? Em busca de um energético para lançar no mercado, a empresa de chocolates SPA, do Espírito Santo, se fez essa pergunta marota e criou o Coffee Beans (veja aqui o vídeo da TV Estadão). Trata-se de um curioso docinho em forma de grão de café que é, em resumo, “café de comer”.

 

Coffee Beans

Coffee Beans, café para comer. FOTOS: Cynthia Almeida Rosa/Estadão

Ficou com água na boca?

 

Os criadores do produto usam grãos arábica da variedade Mundo Novo, cultivados no Sul de Minas Gerais, que têm, segundo eles, “notas de caramelo e chocolate, com acidez cítrica suave”. Aplicam uma torra média para escura, moagem bem fina e misturam o pó a manteiga de cacau (em torno de 30% do confeito), para conseguir a textura macia. O resultado dessa fórmula é um docinho marrom, que ao incauto parece até chocolate.

 

O De Grão em Grão levou os Coffee Beans para que especialistas provassem as três versões do produto: ‘espresso’ (com café e açúcar), ‘café com leite’ (café, açúcar e leite em pó) e ‘cappuccino’ (café, açúcar, leite em pó e cacau em pó). Experimentaram conosco as baristas Cecilia Sanada, consultora de cafés, e Gelma Franco, proprietária do Il Barista, e a chocolatière Luciana Lobo, da Cau Chocolates.

 

Coffee Beans

Coffee Beans em três versões, ‘espresso’, ‘café com leite’ e ‘cappuccino’.

 

Todas foram unânimes em um ponto: é um produto curioso pela proposta, mas que requer ajustes. “É interessante. Quanta matéria-prima descartamos em forma de borra? Teríamos um uso integral do café”, opina Cecilia Sanada, que tem o costume de mascar o grão puro em sessões de torra, um truque para verificar se atingiu o ponto adequado no processo.

 

Provamos os doces isoladamente e depois harmonizando-os com cafés e com leite. Veja as opiniões.

 

O confeito

 

Coffee Beans

 

Sabor ‘Espresso’

Cecilia: há um residual de um bom café, mas acredito que a torra esteja errada, talvez escura demais. Aqui ele está potencializado em sabor. Também diminuiria um pouco o açúcar. Não consigo sentir as notas de um grão do Sul de Minas, talvez por causa da gordura.

Gelma: É interessante, marcante. Não vejo problema de torra, mas o açúcar em excesso mascara o café.

Luciana: É muito parecido com um chocolate de varejo em sua consistência, mas não derrete fácil da boca, provavelmente por causa de gordura hidrogenada. Não tem brilho e poderia ter menos açúcar. O aroma (olfato) é mais interessante do que o sabor. Lembra bastante café.

 

Sabor ‘Café com leite’

Cecilia: Tem bastante leite, mas ainda é possível sentir o café.

Gelma: É deste que mais gostei, mais equilibrado. É cremoso.

Luciana: Este tem mais aroma de leite, acho fácil de agradar. Ainda sinto o gosto açucarado.

 

Sabor ‘Cappuccino’

Cecilia: Sinto pouco gosto de café neste, sobressai o cacau.

Gelma: Tem muito leite e pouco café. É bem docinho.

Luciana: Não sinto traço de cacau. Acho menos doce do que o ‘café com leite’, mas ele perdeu o aroma de expresso ‘cheiroso’.

 

Confeito + bebidas

Junto com a equipe do De Grão em Grão, Cecilia Sanada experimentou os confeitos, harmonizando-os com café Octavio extraído em forma de expresso e filtrado na Hario V60.

 

Com expresso Octavio

 Sabor Espresso: potencializou a doçura, derrete rápido na boca. No segundo gole, ganha amargor e confere mais acidez à bebida. Não se revelou a melhor harmonização.

Sabor Cappuccino: sente-se bastante o leite em pó e o achocolatado. Harmonizou melhor com o expresso.

Sabor Café com leite: muito doce, que se evidencia ainda mais no segundo gole.

  • Resultado: é preciso ter cuidado ao acompanhar uma xícara de expresso, para não descaracterizar uma bebida encorpada.

 

Com grão Octavio coado na Rario V60

Sabor Espresso: potencializa demais o açúcar. No segundo gole, anula a bebida.

Sabor Cappuccino: também apaga o líquido delicado. É preciso redobrar o cuidado.

Sabor Café com leite: anulou o café e o confeito. Ao misturar o doce dentro da bebida, mexendo com auxílio de uma colher, vê-se que ele derrete bem. Mas ainda assim, há um residual de amargor.

  • Resultado: a delicadeza do filtrado não resiste à potência do Coffee Bean. Melhor não tentar em casa sozinho.

 

 

Com leite vaporizado (35 ml)

Sabor Espresso: ao derretê-lo, percebe o problema do ponto de torra.

Sabor Cappuccino: dá para sentir bem o chocolate, mas o café fica apagado. É um leite com chocolate.

Sabor Café com leite: deixa o leite docinho (mas sem sabor de café).

  • Resultado: as versões cappuccino e café com leite podem render um submarino interessante, mas não espere sabor de café acentuado.

 

 

 

 

Em São Paulo, o Coffee Beans está à venda na loja Bombay, em embalagens de 500 gramas, por R$ 35,00. As moedas Coffee Coins, também em porções de 500 gramas, para uso culinário, saem por R$ 32,00.

 

 

 

Esse é chocolate

A chocolatière Luciana Lobo apresenta na loja Cau o seu cafezinho de comer – mas com chocolate. Ela usa matéria-prima da marca belga Callebaut (concentração 54%), que vira ganache, junto com uma infusão de grãos da variedade Bourbon, cultivados em São Sebastião da Grama (SP). Infusão ao pé da letra: os grãos são usados inteiros, sem moagem. Esse ‘chá’ perfuma o chocolate e resulta num doce delicadíssimo, que revela um saboroso perfume de cafezinho. Custa R$ 4,00 a unidade.

 

 

Dicas do universo do chocolate

Luciana Lobo aponta algumas características que busca nos bons chocolates – e que usou para avaliar os cafés de comer. Segundo ela, você deve buscar:

– aroma – as notas do fruto devem estar ali.

– ‘snap’ – é o som que se escuta ao partir o chocolate. Indica que a temperagem foi bem-feita.

– brilho – mais um indicativo de que a temperagem foi bem-feita.

– textura – ele deve derreter facilmente na boca.

 

 

SERVIÇO

Bombay. Al. Ministro Rocha Azevedo, 856, Jd. Paulista, (11) 3083-3999.

Cau Chocolates. R. Peixoto Gomide, 1.740, Jd. Paulista, (11) 3081-9820.

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