Paladar

Jô Auricchio

O Camembert de Hades

15 setembro 2009 | 11:55 por Estadão

Freeshop tem uma mística própria. É um lugar cheio de coisas gostosas, sofisticadas. E ainda assim, quase todo mundo lá dentro se comporta como se estivesse na xepa da feira da esquina.

É uma sofreguidão, gente comentando a plenos pulmões como isso é caro, que nunca ia comprar aquilo no Brasil, – detalhe, estamos em solo brasileiro – um povo que leva caixas e caixas de uísque…

Acho ótimo, porque isso mostra que no fundo todos somos iguais, independente do dinheiro que tenhamos. Todo mundo gosta de uma oferta, principalmente se essa oferta for de comer ou beber.

Ficou com água na boca?

Eu já estou meio escolado com freeshops. É mais barato mesmo que no Brasil, mas eu habito um nível em que isso não é o bastante. Eu compro no atacado mesmo, coisa agressiva, nos lugares mais baratos que consigo encontrar lá fora. A coisa é tão doente que já me pararam na Polícia Federal para perguntar o que estava acontecendo… ah, bons tempos. 🙂

Então, freeshop para mim é mais uma vitrine bacana, onde de vez em quando acho algo que me apetece. E eis que vi lá, na geladeira, um queijo que piscou para mim.

Eu sou tarado pela manteiga Président. Então, conclui que o queijo seria algo tão fenomenal quanto.

Levei o queijo. Já no carro, no caminho de volta para casa, ele se fez anunciar. Mesmo lacrado, dentro de uma sacola plástica, subiu um cheirinho meio desagradável, uma coisa meio esquisita.

“Pára de ser provinciano, Jô. Queijo chique é assim mesmo”, pensei comigo.

Ao chegar em casa, retirei o queijo da sacola plástica, para colocá-lo na geladeira. O odor que saiu dele foi, bem… interessante. Relacrei o queijo em um saquinho plástico temendo protestos ferozes da patroa.

Algumas horas depois, decidi me aventurar. Não acreditava que me faltava a sofisticação e élan para apreciar tal iguaria.

Sabe naqueles filmes e games de zumbi e monstros quando uma sepultura libera um espírito ou vapores etéreos do outro mundo? Foi exatamente essa a sensação que tive ao abrir o queijo. Ele emanava algo ruim, uma presença olfativa que parecia ser o hálito de Hades materalizado em moléculas que se desprendiam do corpo físico do laticínio.

Que fique claro: gosto de gorgonzola, roquefort… queijo fétido não é problema. Mas aquilo estava além de qualquer definição ou escala. Tinha um cheiro errado.

Não me dei por vencido. Depois da família evacuar o recinto, em desespero, cortei um pedaço do queijo e o enfrentei.

“Forte demais… odor matando o sabor… papilas gustativas em revolta… cérebro mandando PARAR!” balbuciei, em sofrimento.

Foi aí que tive a constatação de que sou “simplinho”. Ou que não devo me deixar levar por estereótipos gastronômicos. Se o cheiro é pavoroso, o gosto é pavoroso, caramba, o negócio é pavoroso mesmo.

Tentei mais umas vezes, com vinho, com pão, com vários acompanhamentos. O que dava certo eram apenas os que mascaravam o odor vil. E ainda assim, o sabor do queijo era inferior ao Polenghi que eu já consumia.

Fui a um desses empórios chiques e perguntei ao gerente se era assim mesmo. Vai que eu tinha comprado um queijo possuído por poltergheists…

A resposta: é assim mesmo. E o pior, olha o que o homem me disse: “é um odor fabuloso, maravilha do sabor.” Xará, eu não sei o que você anda comendo, mas esse negócio está bem longe do maravilhoso. BEM longe.

Eu vou comer esse queijo inteiro. Vai demorar um pouco, mas vou. Mesmo que eu não aprenda depois as sutilezas do sabor hediondo dele.

No Estadão já tivemos um caso com queijos assim que entrou para a história. Um ex-colega mobilizou os bombeiros ao sentir um cheiro vil, temendo que fosse alguma tubulação rompida ou algum insumo venenoso da gráfica que havia vazado. Desesperado, o moço começou a farejar o ar em busca da fonte do odor marcante. Não era nada além de um queijo francês que Luiz Américo havia trazido de viagem.

A coroação final do queijo de Hades foi a reação do meu fiel canino, Bender Rodriguez, a ele. Eu ofereci um pedaço do queijo ao pobre animal. Primeiro, ele cheirou o pedaço e saiu correndo, para esfregar o nariz no sofá. Ele sempre faz isso quando um odor o ofende.

Ele tomou coragem e veio buscar o laticínio sombrio. Deu uma fungada e instantaneamente ficou com ânsia. Coitadinho, ele não ouviu o que o moço do empório disse, que era maravilhoso…

Em uma atitude guerreira, ele pegou o queijo na boca, mastigou um pouco e disparou escada abaixo, para o quintal no fundo da casa. Fui até a janela para acompanhá-lo. Ele olhou para os lados, detectou os dois jabutis residentes e jogou o queijo fora, na frente deles, como que em um ato de insulto. Ele se sacudiu, arrepiado, e se afastou velozmente. Ele não se dá muito bem com quelônios.

Os jabutis apreciaram o queijo, mas até aí, eles comem lama na maior alegria. Até agora, eles estão sob monitoramento. Vai saber se isso dá um pirepaque neles…

A lição que tirei disso foi: dane-se se algo é pseudo-chique. A coisa tem que ser gostosa. Comer comida vil apenas pela pose de comê-la é um desperdício de tempo, paladar e alegria. Comida tem que fazer feliz.