Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A onça ensaia um salto mais alto

19 março 2010 | 17:21 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 18/3/2010

Estar na fronteira entre ser um bar ou um restaurante pode se converter num problema de identidade para muitos estabelecimentos. Mas não para o Dona Onça, que parece usar a seu favor a possibilidade de levar seu cardápio para vários níveis. A casa comandada pela chef Janaína Rueda, diga-se, sempre mostrou personalidade forte: nasceu no Edifício Copan, no Centro; investiu num menu que valoriza a tradição paulista; sempre teve orgulho de suas receitas preparadas na panela de pressão.

 Agora, com várias mudanças no cardápio, o Bar da Dona Onça parece estar galgando um novo patamar, de preparações mais elaboradas – e de preços mais altos. Os novos pratos, criados pela chef e por seu marido, Jefferson Rueda (do Pomodori), reforçam a vocação de trabalhar com sabores fortes, com pratos substanciosos, mas sempre relidos pelo ponto de vista da leveza.

Ficou com água na boca?

 Entre as entradas, duas chamam especialmente a atenção. Uma é a lingüiça feita na casa (R$ 29), picante e saborosa, confirmando a habilidade dos Ruedas no manejo da carne de porco. Outra é a panelinha de frutos do mar (R$ 36), com camarões e lulas em pontos de cozimento exatos, bons mexilhões e vôngole e um molho com leve toque de curry – o tempero está presente, mas sem ser predominante. O que poderia ser melhor? O pão do acompanhamento (estava murcho).

Vem então o momento de escolher os itens principais. Aí a tarefa é mais difícil, já que muita coisa parece interessante. Entre elas, há toda uma seção dedicada ao arroz, apresentado aqui em várias receitas. O arroz caldoso de frutos do mar (R$42), por exemplo, não se pretende uma paella nem um risoto. É úmido e ressalta o frescor, mais do que os sabores longamente apurados. Já a variação com galinhada caipira e quiabo (R$ 39), ainda que apetitosa, é talvez mais seca do que deveria – o que pareceu não uma falha, mas um aspecto da concepção do prato.

Mas uma outra opção chama a atenção no menu, o dal plin no molho do assado (R$ 42), feito na pressão. Uma provocação da cozinheira? Certamente. E os agnolotti, que passam na panela de pressão por apenas um minuto, chegam sem sinal de cozimento excessivo. Por fim, entre os pratos provados, talvez o melhor tenha sido o stinco de leitoa (R$ 40), servido c om feijão tropeiro e couve, feliz encontro entre a cozinha caipira e a técnica europeia. E uma prova de que, ainda que esteja buscando o amadurecimento, o Dona Onça segue no propósito de conquistar mais a satisfação do comilão do que o espanto do especialista.

  ONDE COMER

 Bar da Dona Onça – Av. Ipiranga, 200, lj. 27/29, Centro, 3257-2016. 12h/23h (5ª, 6ª e sáb., até 0h; dom., 13h/17h)

Cartões: todos 

Cardápio: petiscos e pratos inspirados na cozinha paulista mas com outras influências