Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A Vila Olímpia em Perdizes

24 abril 2009 | 18:12 por Luiz Américo Camargo

Texto publicado em 23/4/2009 no Paladar

Este é um caso peculiar, um daqueles restaurantes que chegam mais para confundir do que para explicar. A começar pelo nome. Pinotage é a uva símbolo da indústria do vinho na África do Sul, certo? Mas não há nada de sul-africano no menu ou na ambientação. Então, consideremos que a ideia seja a do híbrido, já que a referida casta é um cruzamento da Pinot Noir com a Cinsault. Talvez, pois a casa, autodeclarada mediterrânea, transita mais pelo contemporâneo, mas com pratos de bistrô, italianos, etc.
Os referenciais continuam se movimentando, dando pistas falsas e bagunçando as percepções. Com arquitetura e ambientação modernosas, um bar vistoso, espaço para lounge, ele parece fazer parte do Itaim ou da Vila Olímpia. Mas está em Perdizes, num ponto que (como é comum naquele bairro) antes pertencia a um bar. O porquê da escolha: os quatro sócios, entre eles a promoter Alicinha Cavalcanti e o empresário da moda Amir Slama, acreditam que o circuito tradicional de restaurantes está esgotado, um argumento já incorporado pela equipe. “Nossa ideia é deslocar os Jardins para cá”, disse o maître, enquanto apresentava o cardápio. Talvez a proposta não tenha o peso das ações de um prefeito como o brigadeiro Faria Lima – que, nos anos 60, ao construir as marginais e a avenida que depois ganharia seu nome, apontou que a cidade estava mudando de eixo. Mas tem lá sua ousadia.

O Pinotage foi mesmo concebido para ser um ponto de encontro de socialites. Ao telefonar para saber se a casa estava aberta, ouvi a seguinte recomendação: “É bom reservar, o lugar é muito badalado.” Na noite da visita, entretanto, estava tranquilo. Mas não há como não se sentir, digamos, badalado, com tantos garçons em volta da mesa. E a sensação de trompe l’oeil gastronômico fica mais aguda quando se examina o cardápio, criado pelos franceses Patrick Bolle e Bernard Pointu. Há entradas como rolinhos de camarão, ceviche de namorado com mamão verde, carpaccio. Eu fui numa casquinha de lagosta com catupiry (R$32), com boa textura, mas talvez um pouco indefinida entre os sabores.

Ficou com água na boca?

Nos pratos (os preços são altos, a maioria acima dos R$ 50), as fronteiras movediças avançam. Tem desde paglia e feno ao limone a boeuf bourguignon, de filé au poivre a camarão grelhado com arroz jasmin, sem contar codornas, patos, salmões. O badejo ao limão siciliano com arroz negro e cogumelos (R$ 46), apesar da apresentação um pouco exagerada, estava bem feito, no ponto certo de cocção. Das sobremesas, ainda que o lobby do maître tenha sido pela panna cota com frutas vermelhas, pedi creme brûlée de cabra (R$ 18). Na saída, o “Boa noite, senhor. Gostou do jantar?” foi repetido por toda a extensão do salão. É uma brigada cordial.

A marca Pinotage, ao que parece, vem com força e não quer saber de limites óbvios. Há previsão, futuramente, de abertura de um empório e um restaurante japonês, também na região. Entendeu?

PINOTAGE
R. Apinagés, 1.359, Perdizes, 3672-4638.
Horário: 19h/2h (a partir da próxima terça, abre também no almoço)
Cartões: todos
Cardápio: mediterrâneo (mas também contemporâneo, variado, francês, italiano…).
Avaliação: para quem quer badalação longe do eixo Jardins-Itaim.