Paladar

Bacalhau, carnes e vinhos

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Bacalhau, carnes e vinhos

16 julho 2014 | 20:00 por Luiz Américo Camargo

Se o assunto fosse música, eu diria assim: o novo Antiquarius Grill ainda parece em busca do seu tom. O repertório é bom, os instrumentistas conhecem a partitura. Mas pairam algumas dúvidas sobre a afinação, a embocadura. É uma orquestra ou um conjunto? E o traje, é black-tie ou esporte fino? Explicando melhor, o Grill é o braço mais moderno do tradicional Antiquarius. Sua identidade, em tese, é menos solene, com cardápio que conjuga grelhados a uma seleção de standards da matriz, tendo o bacalhau em primeiro plano.

O Antiquarius nasceu há 37 anos no Rio, fundado pela família Perico, alentejana de origem. Em São Paulo, a filial funcionou entre 1990 e 2012, no 1.884 da Al. Lorena. Na nova encarnação, como Grill (marca que surgiu na Barra da Tijuca, em 2007), o restaurante retorna à mesma rua dos Jardins, só que no número 1.040. E arregimenta vários ex-funcionários, inclusive o cozinheiro Lucivaldo Andrade. Por isso você vai ver tantos comensais tratados pelo nome, com mesuras e rapapés. E aí entra a tal questão do tom. A brigada é gentil, mas formal demais, com overserviço que destoa até do velho Antiquarius.

Ficou com água na boca?

De volta. Repaginado como Grill, o Antiquarius retorna à Al. Lorena. FOTOS: Nilton Fukuda/Estadão

Mas falemos do que vai à mesa. O couvert (R$ 23) continua parrudo, com pão, torradas, patê, manteiga e os conhecidos bolinhos de bacalhau, croquetes de carne e risólis de camarão (que, a meu ver, já foram mais viçosos), e queijo tipo da serra derretido. Se quiser uma entrada, por outro lado, dê um drible nos camarões à zico (R$ 49 por quatro pequenos crustáceos) e consulte um dos maîtres sobre a possibilidade de compartilhar uma açorda de bacalhau. Já que citei o peixe carro-chefe da casa, vou até mudar de parágrafo para tratar dos pratos principais.

Gostei do bacalhau com polvo e alcachofras (R$ 89), com sabores e texturas bem equilibradas; e do bacalhau com gemas (R$ 83), guarnecido por esparregado, o purê de espinafre. O tradicional à lagareiro, por sua vez, embute um dilema: pedir a porção menor (R$ 86) ou a maior (R$ 136)? A meu ver, compensa mais pedir a graúda, para dividir entre dois ou três. Mas o Antiquarius Grill é também uma casa de carnes. E prepara um saboroso (e levemente seco) pernil de porco preto (R$ 86), servido com aligot; e um T-bone suculento, preparado na grelha char-broiler – o calor advém da pedra, aquecida por chama a gás.

Bacalhau à lagareiro, o prato tradicional da casa

Por fim, se há algo realmente capaz de reconectar os antigos clientes com os velhos tempos, são as sobremesas (R$ 23). Estão lá os açucarados toucinhos do céu, siricaias… Mas também os nem tão doces (e gigantescos) ovos nevados. A carta de vinhos surpreende. O sommelier Ernesto Arahata fez uma seleção de rótulos mais à portuguesa, destacando castas regionais. O que inspira a fugir do clichê bacalhau-com-chardonnay-fermentado-em-barrica.

Por que este restaurante?
Pela volta da tradicional marca Antiquarius à cidade.

Vale?
A refeição completa, sem bebida, sai entre R$ 150 e R$ 200 (em breve, haverá um menu de almoço). Vale conhecer – especialmente para os antigos frequentadores. Mas dói no bolso.

SERVIÇO – Antiquarius Grill
Al. Lorena, 1.040, J. Paulista
Tel.: 2638-0938
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h/0h (6ª e sáb., 12h/16h e 19h/1h; dom., 12h/17h; fecha 2ª)
Cc.: todos
Estac.: manobrista, R$ 20

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 17/7/2014

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