Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Bistroquets e caminhões

03 setembro 2014 | 17:00 por Luiz Américo Camargo

O ainda novo On Va Manger, na Bela Vista (R. S. Miguel, 89), cumpre bem seu papel (auto-proclamado, inclusive) de bistroquet. Do que se trata? De um estabelecimento que une as funções de bar, café e, claro, bistrô. O lugar não se alinha tanto com a estética (e o cardápio) de bistrô que temos visto grassar por aqui. É mais simples, mais trivial. No almoço, apresenta uma fórmula de R$ 34,50 que inclui entrada, prato e sobremesa. E destaca principais como linguiça na chapa e tripas, preparados sem truques – como um boteco à francesa, mesmo (e, mal comparando, já que o On Va Manger não é um bar de vinhos, num estilo que me lembra o simpaticamente bagunçado Le Verre Volé, em Paris). A água é de graça, o serviço é educado; não há frescuras, tudo é muito básico. E a relação preço/qualidade é bastante razoável.

As casas com bom almoço executivo, vendido por cifras atraentes, são cada vez mais numerosas – abordei este assunto em mais de uma oportunidade. Estabelecimentos de outras vertentes, que vêm se propondo a oferecer comida bem preparada com informalidade, também já não são raridades (La Guapa, Maíz). O que essa movimentação significa? Mais alternativas para o consumidor, em níveis diferentes; descompressão de preços; concorrência; entendimento de que a refeição do cotidiano não precisa ser a do valet, da taça de cristal, da hostess.

Aos poucos (quase vagarosamente), a coisa vai clareando. E torna-se mais possível detectar quem é casual, quem é mais formal, quem pode oferecer mais serviço, quem é mais autoral, quem realmente é de luxo, quem não é… Algo que, por aqui, sempre foi meio encoberto pelos véus opacos da média restauração (onde tudo é caro, tudo é muito parecido), sempre foi meio mascado pelo aquecimento da demanda e pelo apetite novidadeiro dos comensais. Ainda estamos no meio do processo (bem, sempre estamos), mas, vejam só: creio que essa nova leva de lugares e propostas acabou evidenciando uma outra peculiaridade do mercado. Eu me refiro à percepção ainda mais nítida de que nossos food trucks deveriam ser menos caros – já que a comida de rua ocupa posição importante no redesenho do panorama.

Ficou com água na boca?

Já escrevi a respeito num comentário para o Paladar, numa reportagem de capa que falava dos caminhões. Atribuo os preços meio inchados ao começo da onda, aos momentos pioneiros da modalidade, ao alto custo dos veículos-restaurantes (num ambiente ideal, teríamos os tais trucks, mas também bancas de quitutes populares, carrinhos de sanduíches etc). Porém, o fato é que gastar R$ 30 ou mais para comer de pé, sem nenhuma infra, acaba se tornando questionável, em comparação com menus-executivos de patamar equivalente em restaurantes (onde você se acomoda, dispõe de talher e louça, é servido etc). Mas eu acho que o tempo e a própria dinâmica dos consumidores há de corrigir as distorções. Às vezes demora mais, às vezes menos. Mas anda.