Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Bolsa-viagem gastronômica

02 abril 2009 | 23:31 por Luiz Américo Camargo

Eis aqui um programa social para o qual eu me inscreveria.
O bolsa-viagem gastronômica atacaria uma questão que se reflete em vários pontos tratados nos posts anteriores: a formação de público. Clientes bem informados sabem exigir mais. Não aceitam qualquer comida por qualquer preço.

Seria uma espécie de processo civilizador. Os selecionados iriam para Europa, Japão, EUA. Descobririam que, em muitos países, restaurante com comida ruim não vinga – diferentemente daqui, onde um bom ponto e uma decoração caprichada podem ser mais importantes do que a cozinha. Comprovariam que um lugar como o Le Comptoir serve um menu gastronômico por 40 euros (R$ 120), com muitos pratos e queijos no final. Ou que um dois estrelas como o Mugaritz cobra 100 euros pela sua degustação (R$ 300, o que você pode acabar pagando num esquema entrada-prato-sobremesa-água-café num restaurante top daqui). Veriam o que é um sommelier de primeira em ação (lá tem vários; aqui, são poucos). Entenderiam como é bom comer ingredientes frescos, da estação.

Lembrem-se: lá eles ganham em dólares e euros. Nós, em reais.

Ficou com água na boca?

Na volta da turnê, com seus horizontes ampliados e seus sentidos definitivamente transformados, eles pegariam no pé de nossos restaurateurs. Dariam mais valor ao seu dinheiro e tratariam com mais dignidade suas papilas gustativas. De quebra, compreenderiam, em contraposição, como nossos sabores são interessantes. E como seria melhor se nossos estabelecimentos usassem produtos locais de boa procedência em vez de importados fajutos.

Pensem bem: uma leva de frequentadores de restaurantes indo periodicamente para essas excursões de cunho social. Todo mundo se reciclando, arejando o mercado brasileiro, deixando de aceitar uma restauração cara e de resultados dúbios para fincar o pé por melhores serviços.

Porque a grande questão, na verdade, é a briga pelo que é bem feito. Pela qualidade paga com justiça. O baratinho, o fuleiro, esses também não interessam (escrevi a respeito no post de 26/2). Vamos reclamar pelo melhor. Seja em alta cozinha, na restauração média, na comida caseira.

Um sinal de maturidade gastronômica de uma sociedade é valorizar, acima de tudo, o que vai no prato. Nos posts anteriores, muitos comentaram que o público é que não sabe se posicionar – prefere taça de cristal a comida bem feita. Eu acho que uma coisa não elimina a outra. Meu ponto é que os preços, na maioria dos restaurante, estão fora da realidade. É óbvio que devemos evitar a tentação dos raciocínios simplistas. Eu procuro olhar as coisas dentro da sua complexidade, em perspectiva. Mas meu ponto de vista é o do cliente, do leitor, do visitante que vai a um lugar, come, paga a conta.

O luxo, você exige de quem cobra por ele, de quem se propõe a oferecê-lo. Não em qualquer lugar. Eu prefiro é comer bem. Mas saber comer requer treino, repertório, atenção com o que está na mesa. Formação de público, enfim.

Já imaginaram no impacto transformador que um sistema desses teria sobre nosso mercado? Quantos não sairiam correndo para pegar o seu lugar na fila?