Paladar

Como se diz bistrô em árabe?

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Como se diz bistrô em árabe?

09 outubro 2013 | 22:00 por Luiz Américo Camargo

Vou tentar definir a Casa Cury partindo de algumas negações. O pequeno restaurante de orientação árabe/mediterrânea não serve esfiha, para começar. Nem funciona em velocidade de fast-food, pois tudo é feito na hora. E não corresponde às imagens mais comuns quando se fala em estabelecimentos do gênero: não tem cara nem de lanchonete, nem é caricatamente “étnico”. Valet? Também não tem.

Passo agora às afirmações. A Casa Cury tem espírito de bistrô, no sentido do despojamento, com os donos participando de tudo. E aparência de bistrô, ocupando um charmoso imóvel em Perdizes, com salão pequeno e adornado por alguns objetos e fotos que remetem ao Líbano. Seu cardápio é enxuto e destaca receitas simples e tradicionais, sanduíches, além de grelhados feitos no charbroiler (leva 20 minutos para que fiquem prontos).

Ficou com água na boca?

Casa Cury. Pratos com personalidade e frescor, preparados pelos donos. FOTO: Daniel Teixeira/Estadão

Os proprietários, Celso Cury e Alessandra Porro, são estreantes no ramo e tocam diretamente a operação. Fazem todo o pré-preparo pela manhã e, quando o restaurante abre, ela vai para o salão, enquanto ele segue no fogão. Seus pratos têm personalidade, frescor, não fogem do sal nem do tempero. Comi várias coisas diferentes e, no geral, saí satisfeito. Gostei bastante dos sanduíches de shawarma e de falafel (ambos R$ 18), montados com esmero, valorizando os diferentes sabores e tramas dos recheios; do arais, a kafta prensada dentro do pão pita (R$ 7); e do quibe michui (R$ 28), bem condimentado e com ótima textura.

Falando agora das sugestões pastosas, por assim dizer, o babaganush é rústico, com notas da berinjela tostada muito presentes; o homus é granuloso, quase mordível; a coalhada é delicada, mas tem corpo (a porção com as três pastas custa R$ 18). Quase tudo é produzido no próprio restaurante, mas vale a pena provar o que vem de fora: o potente basturmá (a carne curada e condimentada à maneira armênia), fatiado e frito com ovos (R$ 28), e a porção de linguiça merguez, levemente picante (R$ 28). Segundo os proprietários, o basturmá, a merguez e a kafta são comprados do mesmo fornecedor, um artesão de origem armênia.

A Casa Cury oferece, em resumo, uma cozinha caseira de inspiração levantina, executada e servida pelos donos, o que faz uma bela diferença. É verdade, contudo, que ainda falta azeitar melhor as conexões entre cozinha, balcão de bebidas e salão: o ritmo é mais para lento. Por outro lado, fico pensando se a sensação de demora não é mais pelo tempo psicológico (como dizem na dramaturgia) do que pelo cronológico. E se não é a força do hábito paulistano de querer vários garçons à disposição, seja num boteco ou num restaurante formal. Pois num estabelecimento familiar, genericamente falando, talvez o tributo a pagar seja aprender a esperar um pouco mais. A alternativa? Ver o salão cheio de atendentes, mas se haver com uma conta bem mais salgada.

Por que este restaurante?
Pela boa cozinha simples e saborosa, a preços camaradas.

Vale?
Provando e compartilhando, gasta-se entre R$ 30 e R$ 50 por cabeça, sem bebidas. Vale.

SERVIÇO – Casa Cury
R. Apinajés, 597, Perdizes
Tel.: 2589-1218
Horário de funcionamento: 17h/23h (sáb. e dom., 12h30/18h; fecha 2ª e 3ª)
Cc.: D, M e V
Estac.: não tem (não é fácil estacionar na região; ir de táxi é mais fácil)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 10/10/2013

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