Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Destinazione, Sicilia

03 janeiro 2013 | 06:17 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 3/1/2013

Alguém, na restauração italiana da cidade, precisava mesmo não querer ser só piemontês. E, principalmente, toscano, a grande onda dos últimos dois anos. Nada contra nenhuma dessas cozinhas regionais. O que incomoda é o efeito manada: uns começam, uma multidão vai atrás. Arremetendo rumo ao Sul, o Domenico, aberto na rua Melo Alves, busca inspiração na Sicília, cuja culinária ainda não é das mais praticadas por aqui, e creio que não só por falta de informação. Mas porque é difícil executá-la sem dar atenção rigorosa a peixes e afins.

O proprietário é o empresário siciliano Domenico Mira, em São Paulo desde 2009. Na cozinha, o comando é do chef pugliese (e também sócio) Rodolfo de Santis, até recentemente no Biondi. Juntos, eles elaboraram um cardápio que não é apenas do mar, nem exclusivamente siciliano. Mas que se mostra um pouco mais arejado na comparação com seus pares.

Ficou com água na boca?

A refeição pode começar muito bem com entradas como o crudo di pesce (R$ 42), com fatias de peixe-espada, azeite, alcaparras, rúcula, limão; a insalata di mare (R$ 38), com camarão, lula, polvo, minilegumes; e a berinjela à parmigiana (R$ 32). E seguir no mesmo nível com uma interpretação menos ortodoxa dos spaghetti freschi con sarde (R$ 48), a massa com sardinha, polvilhada com molica, a farofa de pão. Ou ainda o peixe do dia (no caso, atum, R$ 88) semicru, com aspargos e purê de batatas – dispensavelmente – trufado.
(Já impliquei com a invasão de pannacotta, com TVs no salão, com sommeliers ansiosos e tenho falado muito de trufados. Se não estamos em Alba, por que abusar desse tipo de produto? Deixemos a trufa para a hora certa.)

Por outro lado, duas sugestões em particular precisam de reparos. O gnocchi com lagostim (R$ 56), em todas as visitas, foi sempre apresentado como um “carro-chefe” da casa. Até que, então, eu pedi o prato. O molho de bisque é bom, mas a massa carece de leveza e sabor. Já ao grigliato gallipoli (R$ 85), com frutos do mar variados, faltou justamente a expressão da grelha; mas sobrou molho de tomate (e rigidez para o polvo).

Se a cozinha balança um pouco, embora com bons resultados, o serviço dá seus solavancos. É gentil, só que não domina o menu e, dependendo da área do salão, revela algumas zonas de sombra, para usar a velha imagem do universo da telefonia móvel: o cliente fala, mas parece que é difícil ouvir. Durante um almoço, escolhi uma coisa, mas chegou outra à mesa. Ao ser questionado sobre o engano, o maître respondeu: “Não, está certo, é isso mesmo”. Foi preciso retomar o cardápio, enunciar os ingredientes, comparar com o que foi apresentado… até que ele se convencesse do deslize. Logo depois, o prato correto foi trazido.

Fantasiando um pouco, confesso que esperava, digamos, um deck com o sol da Sicília um pouco mais rasgado, queimando na cara. O Domenico ainda não é isso. Mas já é, vá lá, uma escotilha.

Por que este restaurante? Porque é uma novidade interessante.
Vale? O gasto por pessoa passa facilmente dos R$ 150. Caro, mas vale arriscar.

Domenico – R. Dr. Melo Alves, 674, J. Paulista, 3037-7323.