Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Entre massas, brasas e filas

22 março 2012 | 20:17 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 22/3/2012

Não se deve ir ao Girarrosto buscando encontrar o Pandoro. O novo restaurante ocupa o ponto que foi do famoso bar fundado em 1953 (e fechado, em definitivo, em 2010), mas segue por outras vias. Assim como não se deve visitá-lo esperando uma mera casa à toscana, cujo centro nervoso é o equipamento que dá nome ao lugar, um espeto giratório a lenha. É uma outra experiência.

O Girarrosto, se fosse um filme, seria uma superprodução. Vários ambientes, muitas mesas, numerosas brigadas, vaivém de carros. Mas com uma certa atmosfera de impaciência e um alto nível de ruído, especialmente na sala que tem vista para a Cidade Jardim. Fruto da sociedade entre o chef Paulo Barroso de Barros e o empresário Paulo Kress Moreira (parceiros também em casas como Italy e Kaá), a nova casa é agigantada inclusive no cardápio, com quase cem itens, massas em sua maioria.

Ficou com água na boca?

O lugar tem lotado com regularidade, desde a abertura, há mais de um mês. O que faz pensar – e eu já falei disso – no talento de Barros em construir mundos dos quais as pessoas querem fazer parte, não importa a fila e a demora. Porém, eu não pude deixar de notar que o chef, ao menos nas visitas que fiz, agora é um homem de salão. E lembrei dos primeiros tempos do Due Cuochi, seu ex-restaurante. Ou, melhor, de quando a casa foi ampliada e reformada, criando uma cozinha à vista: era possível presenciá-lo em ação, num ritmo alucinante, liberando prato por prato, uma casalinga saborosa e com senso de padrão.

Não estou afirmando que, no Girarrosto, ele também deveria estar entre brasas e lenhas. Pois a vida tem de seguir adiante, e a dele andou bastante, a custa de muito trabalho. Mas quero dizer que os pratos do novo restaurante carecem de alma. E, mais ainda, de um controle fino na execução. Uma equação que os cozinheiros Massimo Barletti e Ivo Lopes ainda não resolveram.

O couvert (R$ 9,50) é simples e satisfatório, com um pão crocante, azeite e uma garrafa d’água. O sottolio (R$ 41, a porção mista de antepastos) traz razoáveis conservas de abobrinha e alcachofrinhas, entre outras, mais ou menos no nível do Italy. Já no caso das massas, o agnolotti de plin (R$ 42) chegou à mesa um pouco mais cozido do que deveria; e o bigoli com ragu de costela (R$ 40), com molho um tanto salgado.

Dos pratos feitos no girarrosto, o suculento frango de leite (R$ 39) agradou bem mais do que a porchetta (R$ 45), uma peça com pouca carne e pouco sal. O grelhado misto de frutos do mar (R$ 68), feito na brasa, até dava a impressão de que redimiria os outros deslizes: crustáceos no ponto certo, úmidos por dentro, um bom polvo. Até que foi provado o bacalhau, salgado demais. Em suma, falta equilíbrio, harmonia, mesmo em se tratando de uma proposta que não almeja a alta Cucina.

Mas olhando o salão apinhado, a impressão que dá é que o Girarrosto se credencia mesmo é para ser o grande restaurante genérico – sem demérito – do eixo Jardins/Itaim. Um lugar onde há de tudo para atender à diversidade de apetites de um almoço “pessoa jurídica”, ou mesmo toda a família: massa, carnes, frutos do mar… até pizza (à noite). E tudo isso independentemente do serviço, ora presente demais, em especial para insistir na venda de vinhos, ora ausente, dependendo de onde se senta. E da demora do serviço de valet (que, no meu caso, variou de 10 a 25 minutos). Afinal, parece que o essencial mesmo é estar ali, com mesa assegurada.

Por que este restaurante?
Porque é uma novidade, pertencente a restaurateurs de sucesso.
Vale?
Ainda que os preços não sejam dos mais altos, o programa, como um todo, ainda não é dos mais empolgantes.

Girarrosto – Av. Cidade Jardim, 56, J. Europa, 3062-6000. 12h/15h e 19h/0h (6ª e sáb., até 1h; dom., 12h/0h). Cc.: todos