Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Está gostando por quê?

05 janeiro 2009 | 20:54 por Luiz Américo Camargo

“Você gostou? Ou não gostou?”
Obviamente é a primeira coisa que me perguntam quando comento que fui a um determinado restaurante. Ok, é mesmo a questão essencial a ser esclarecida.
No contato direto, não há muito o que complicar a resposta: é dizer sim, não, mais ou menos…

Mas, por dever de ofício, você aprende que uma refeição se compreende por níveis, se assimila por camadas. Então, o fato de ter gostado mais ou menos depende muito do nível de profundidade em que você quer se expressar. Entenderam?
Um primeiro patamar: se achei bom ou não. Depois: do que mais gostei, o que mais repudiei. Em seguida: por quais motivos gostei. E por aí segue a prospecção.

Escrever sobre comida envolve uma relação quase esquizofrência entre dois aspectos muitas vezes conflitantes: a fruição plena de um prazer e a observação atenta aos porquês desse prazer. “Isto é bom? Mas por quê? O que faz disso bom?”
Enfim, um estado análogo ao “beber com atenção”, que era como o professor Peynaud definia o ato de degustar um vinho.

Ficou com água na boca?

Enquanto uma metade relaxa, se rende, a outra permanece vigilante. É o superego que assiste à satisfação do instinto, é aquele observador (sim, você mesmo ou alguma instância que se comporte como tal) que não tira os olhos da sua boca enquanto você mastiga. Tem horas em que penso que estou ficando maluco: quem é esse cara parecido comigo olhando para o meu prato?
Certamente, é também algo que mistura e sobrepõe uma série de referências e informações que vão do repertório pessoal à cultura geral. O que lemos, o que pensamos, o que nos atiça o senso de equilíbrio (ou desequilíbrio) estético. Mas, voltando, é antes de tudo o exercício de se flagar em meio a uma emoção.

Melhor do que escrever logo depois de uma refeição, é fazê-lo no dia seguinte – ou, no mínimo, com boas horas de distância. Na hora, no momento da garfada, temos revelações, impressões que podem ser as principais norteadoras daquilo que queremos contar. Essas primeiras percepções, claro, não podem ser perdidas. Mas ter um tempo para refletir é fundamental. Tempo para observar como foi a digestão – até do ponto de vista fisiológico; para relembrar, longe da mesa, o que assimilamos de uma entrada ou de um prato; para entender o que significou o programa como um todo.

Mas é verdade que nem toda refeição inspira tanta reflexão. E, na urgência de quem avidamente só quer saber se deve ou não ir a um determinado restaurante, nos resta a comunicação no nível mais básico da experiência. E ser curto e grosso: gostei, não gostei.