Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Estabelecendo a nova ordem cordial

21 agosto 2009 | 06:03 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 20/8/2009

A cena, para mim, era inédita. Eu jamais havia visto crianças no Pomodori. Reconhecido por sua cozinha italiana requintada, pelo ambiente despojadamente elegante, pelos preços altos, o Pomodori também sofria com a pecha de não ser necessariamente amigável. De um ano para cá, contudo, as coisas mudaram. Os sócios Jefferson Rueda e Marina Thompson implantaram outros pratos, interferiram na atmosfera geral.

Agora, depois de uma reforma considerável, que resultou na abertura de outro salão (onde funcionava o extinto La Tomate) e na criação de um novo cardápio, o restaurante completa seu caminho, digamos, rumo a uma fase mais luminosa. O Pomodori de hoje é uma casa sem as tensões e afetações de antes. A ponto de, retomando o início deste texto, até crianças fazerem parte da clientela.

Ficou com água na boca?

Essa nova ordem cordial tem até uma face visível e, por que não, reconhecível. Trata-se de Michelly Machri, protagonista da campanha publicitária do “Tio Sukita”: ela é quem cuida das reservas e recebe os clientes. Em suma, nem de longe lembra o lugar que inspirava constrangimento em quem estranhava o fato de só haver água italiana (de 2008 para cá, tem nacional também). Mas a transformação mais significativa emana da cozinha de Rueda.

O Pomodori parece ter aprimorado sua vocação para massas mais refinadas. Entre as novidades, o “ravióli surpresa” de quiabo e galinha caipira (R$ 49), servido com molho rôti, tem um interessante jogo de texturas e sabores (por dentro, cada trouxinha é dividida em dois compartimentos, um para a ave, outro para o legume). Já o spaghetti de rúcula alla chitarra (cortado finamente, como um tagliolini) com abobrinha, berinjela, tomate e ricota de búfala (R$ 39) é aquele tipo de prato que dá a impressão de resultar em algo excessivo. Mas não é o que acontece: é leve, equilibrado.

A maior inovação, entretanto, parte do recém-montado braseiro, movido a lenha de eucalipto. É ali que são feitas as carnes de porco à moda caipira (R$ 52), com pancetta, linguiça artesanal e medalhão, suculentos e muito bem condimentados. E também os pescados do dia, servidos com vegetais igualmente na brasa – a opção provada foi o pargo (R$ 49), um filé úmido e de sabor delicado.

Do braseiro o chef tira ainda sobremesas, como as frutas assadas com sorvete de mascarpone (R$ 16), menos empolgantes do que os itens anteriores. Também não entusiasmou tanto a versão do clássico baba au rhum (R$ 16), com uma certa indefinição de sabores. Mas nada que comprometa o conjunto da obra e impeça o visitante de sair com um sorriso – sem se sentir recriminado por isso.

POMODORI
R. Renato Paes de Barros, 534, Itaim-Bibi, 3168-3123
(60 lug., com o novo salão)
12h/15h e 19h/0h (5ª, 6ª e sáb. até 1h; 3ª, só jantar; dom., 13h/17)
Cartões: A, M e V
Cardápio: italiano, agora com alguns pratos na brasa.
Avaliação: lembra daquele restaurante carrancudo e apertado? Esqueça.