Paladar

Filé mignon e picanha? Não tem

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Filé mignon e picanha? Não tem

14 janeiro 2015 | 18:08 por Luiz Américo Camargo

Na mesa ao lado, um senhor com ares professorais questionava um dos sócios do Cortés sobre o nome do lugar. Por que o acento agudo, por que aquela grafia? Não soaria confuso em português? Parei de acompanhar a explanação quando chegou meu prato, no momento em que o erudito cliente começava a discorrer sobre sílabas tônicas e fonemas nas línguas latinas – enquanto continuava a receber a atenção de seu interlocutor. Conversas de salão à parte, esse é o primeiro ponto a ser informado sobre o restaurante. Pronuncia-se “cortês”, o que, de resto, não afeta o programa. Já o segundo ponto é mais determinante, caso seu gosto siga a média nacional: não tem filé mignon nem picanha.

Cortés. Opção por sair do tradicional para explorar outros cortes . FOTO: Divulgação

Ficou com água na boca?

Aberta há um mês no Shopping Villa-Lobos, no piso térreo, a espaçosa primeira unidade da casa de carnes do Grupo Ráscal simplesmente optou por não servir a dupla preferida dos brasileiros. Uma decisão gastronômica (corajosa, diga-se) motivada pela intenção de divulgar outros cortes. Notadamente os lombares, como ancho e prime rib, e até sugestões de perfil mais argentino, como o bife cortés.

O esquema é simples: o cardápio cabe numa página, com porções, carnes, acompanhamentos. Para beber, uma lista de cervejas acima da média entre as churrascarias; e uma boa variedade de vinhos, alguns bastante acessíveis.

As empanadas (R$ 18) funcionam bem como entrada. As linguiças grelhadas (porções a partir de R$ 13) também, com as opções toscana, morcilla e chistorra – a minha preferida. Entre os cortes, provei um ancho (R$ 63) muito bem churrasqueado, a melhor das pedidas.

Gostei um pouco menos do cortés (R$ 55), que os portenhos preferem sempre “jugoso”, bem vermelho. É um bife matreiro, chamado aqui de diafragma e de entraña na Argentina, fácil de passar do ponto por causa da espessura – e foi o que aconteceu. O mais fraco foi o assado de tira suíno (R$ 52), algo ressecado e, pelo próprio tamanho dos ossos (bem menores do que a versão bovina, obviamente), um tanto difícil de comer.

À maneira do que acontece com o Ráscal, notório exemplo da possibilidade de conciliar padrão de qualidade e larga escala, o Cortês não tem chef. Pratica uma cozinha de consultores, como Flávio Saldanha, expert em carnes, e Daniela França Pinto, responsável pelos demais pratos e guarnições – um ponto forte do restaurante, seja na farofa de ovos (R$ 15), no salteado de couve e espinafre (R$ 12), nas batatas bravas (R$ 16) e no feijão vermelho com arroz (R$ 16).

O serviço ainda se atrapalha um pouco, ora com os pedidos, ora com o lançamento dos itens na conta. Falta também equacionar melhor o timing e o equilíbrio entre presenças excessivas e ausências súbitas. Mas a brigada é muito gentil (não, eu não vou usar o termo cortês) e não se furtou em reparar prontamente os desacertos.

Por que este restaurante?
É uma boa novidade.

Vale?
As entradas e guarnições têm bons preços e podem ser partilhadas. Os cortes de carne variam entre R$ 52 e R$ 92 (wagyu). A refeição completa, sem bebidas, sai em torno de R$ 100. Vale conhecer.

SERVIÇO | Cortés
Onde: Shopping Villa Lobos. Av. das Nações Unidas, 4.777
Tel.: 7725-4729.
Quando: 12h/15h15 e 19h/22h15 (6ª, até 23h15; sáb. 12h/17h15 e 19h/23h15; dom., 12h/17h15 e 19h/22h15).
Ciclofaixa: Marg. Pinheiros