Paladar

Gero: clássico aos 20 anos

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Gero: clássico aos 20 anos

12 novembro 2014 | 18:32 por Luiz Américo Camargo

O Gero foi o restaurante que bagunçou o cenário da gastronomia paulistana, em vários sentidos. Vou explicar. Seu surgimento, há 20 anos, consolidou um novo degrau de culinária italiana na cidade: abaixo da cucina più raffinata de Fasano, Ca’d’Oro, Massimo; e obviamente acima de cantinas e afins. Mais do que um modelo de restauração, virou referência de estilo e se tornou um centro de formação de profissionais.

Por outro lado, o Gero, com seus inúmeros imitadores, serviu de inspiração para uma fórmula que, distorcida ao longo do tempo, configurou uma equação mais ou menos assim: brigada numerosa e bem-vestida no salão + pratos de domínio público + ambiente propício a badalações e refeições “pessoa jurídica” = contas cada vez mais altas. Um caldo de cultura que ajudou a moldar uma média restauração cara e repetitiva, com endosso de significativa parcela do público.

Ficou com água na boca?

Pioneiro. Abertura do Gero inaugurou uma categoria de casa italiana. Foto: Sergio Castro/Estadão

O que vai acima, claro, é por minha conta e risco. E é provável que o restaurateur Rogerio Fasano, quando criou o Gero para que fosse uma charmosa versão jovem do Fasano, nem pensasse em tal poder de influência. Era 1994 e o País vivia um ano alvissareiro em alimentos e bebidas, com preços estabilizados, mercado aberto à importação e o real equivalendo ao dólar. O então novo restaurante se ajustou ao momento e o sucesso foi imediato. Continua assim.

Hoje, para além do serviço acolhedor e da ambientação chique-sem-opulência, come-se bem no Gero, melhor do que no início, em níveis de preço que evidentemente nada têm de tratoria: R$ 40/R$ 50 para entradas; R$ 70 em média para principais; em torno de R$ 30 para doces. Nas últimas temporadas, a cozinha tem feito constantes evoluções, produzindo até alguns pratos memoráveis, como orzo perlato (com cevadinha e frutos do mar) e a paleta de cabrito, ambos não mais no menu. Hoje, sob o comando do chef José Solon, a casa continua um bom endereço para uma reconfortante polenta ao gorgonzola, para um tartar de atum, para uma lasanha sem invencionices (sem falar nos deliciosos chips de abobrinha, sempre repostos à mesa).

Linguado à mediterrânea do Gero é um dos peixes mais confiáveis da cidade.

O bolito misto das sextas, ainda que numa interpretação amainada, compensa a visita, especialmente se antecedido pelo delicado capelete in brodo. E, a meu ver, o linguado à mediterrânea, com tomates e azeitonas, é um dos peixes mais confiáveis da cidade. E, considerando que se trata de uma casa de massas e carnes, é de admirar a qualidade da doçaria. Não apenas por escolhas mais óbvias como tiramisù e panna cotta, mas também no caso de sobremesas como mil-folhas e babá ao rum, que pouquíssimos executam como se deve.

Por que este restaurante?
É um clássico da cidade que chega aos 20 anos.

Vale?
A fórmula do almoço custa R$ 92, com várias opções de entrada, prato e sobremesa. Pedindo à la carte, do couvert à sobremesa, gasta-se entre R$ 150 e R$ 200, sem bebidas. O preço é alto. Mas é no conjunto comida/serviço/ambiente que se constata que o Gero segue acima de seus descendentes.

SERVIÇO – Gero
R. Haddock Lobo, 1.629
Tel.: 3064-0005.
Horário de funcionamento: 12h às 15h e 19h às 0h (6ª das 12h às 16h e das 19h a 1h; sábado, das 12h às 16h30 e das 19h a 1h; domingo, das 12h às 16h30).
Estac.: com manobrista, R$ 20.
Ciclorrota na R. Oscar Freire

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 13/11/2014

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