Paladar

GRU para MYK, ida e volta

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

GRU para MYK, ida e volta

23 janeiro 2013 | 23:00 por Luiz Américo Camargo

O que é Myk, um nome próprio, um ingrediente? Eu também não sabia, mas é o código Iata – aquelas três letras que identificam um aeroporto – para Mykonos, a ilha grega que inspira este novo restaurante. Instalado numa casa caiada de esquina, clara como é usual naquela região do Mar Egeu, o Myk ocupa o ponto que já foi do diuturno e extinto Pasta & Vino.

As referências helênicas, digamos, vêm da trajetória da chef Mariana Camargo Fonseca, que trabalhou cinco anos em Mykonos (em SP, ela passou por lugares como o Di Bistrot e o Leopolldina). É verdade que vegetais, queijo feta e ouzo pontuam aqui e acolá no extenso cardápio. Contudo, a Grécia proposta pelo Myk talvez seja mais um horizonte estético do que uma diretriz gastronômica.

Ficou com água na boca?

Casa caiada. Inspiração no Mar Egeu, no ponto que foi do Pasta & Vino. FOTO: José Patricio/Estadão

A ambientação e o “tst-tst” da música de fundo (alta à noite, amena de dia) evocam um clima de lounge. No entanto, o serviço funciona bem e não tem o tom blasé dos dining clubs. É atento, simpático, informado sobre o cardápio. Faz o estilo “maître veste blazer e garçom usa allstar”, muito adotado em casas do eixo Jardins-Itaim, notadamente as que derivaram da escola Gero (e, numa segunda extração, do Piselli). O menu propõe um Mediterrâneo geral e irrestrito, até com submenu infantil.

É no capítulo de petiscos e entradas que a cozinha demonstra mais desenvoltura. Pedidas como as minicoxinhas (R$ 13), o rolinho de cordeiro (R$ 28), o bolinho de tomate (R$ 13), o tartar de atum (R$ 28) são divertidas, prazerosas. Mas a experiência fica mais truncada na hora das peças de resistência. Parece perder um pouco da espontaneidade.

O melhor prato foi o polvo grelhado (R$ 51) com batatas rústicas, tenro, bem marcado externamente. Num segundo plano, vem a pescada amarela com legumes grelhados (R$ 41). Já outras sugestões não funcionaram tão bem. Como o espaguete ao vôngole (R$ 29), onde predominava a pimenta-biquinho, abundante na versão da casa. Ou as bolinhas de carne ao molho de tomate, um prato um tanto confuso (R$ 26). E especialmente a costeleta de porco (R$ 31), tímida, mais empolgante na aparência do que na boca. O limão-siciliano, outro ingrediente-estandarte do menu, ainda parece indomado nas receitas. Aporta os aromas que dele se esperam; mas traz, por vezes, uma acidez e um amargor além do desejável. Foi o que aconteceu com as bolinhas de carne e, em menor escala, com a pescada amarela. Deslizes mais de concepção do que de execução – o que vale também para as sobremesas.

A sensação final é de que dava para ser melhor. Uma casa que tem bom atendimento (até o manobrista pergunta se você comeu bem), preços razoáveis e acerta a mão em vários itens conseguiria ir mais adiante. Pensando bem, Mykonos não é a ilha onde Zeus foi resolver suas querelas com os titãs? Por analogia, talvez esteja faltando aos pratos um acerto entre Apolo e Dionísio: mais equilíbrio, por um lado, mais sabor, por outro.

Por que este restaurante?
Porque é uma novidade.

Vale?
Dá para arriscar.

SERVIÇO – Myk
R. Peixoto Gomide, 1.972, Jd. Paulista
Tel.: 2548-5391
Horário de funcionamento: 12h/24h (5ª, só jantar, 18h/1h; 6ª e sáb, 12h/1h; dom., 12h/18h)
Cc.: todos

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