Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Isto não é uma resenha

30 abril 2014 | 11:26 por Luiz Américo Camargo

Este post é mais sobre um estado de espírito do que uma indicação do crítico. Pois não estou falando que vocês deveriam conhecer o endereço em questão – embora, estando nos arredores, certamente comerão melhor ali do que num fast food ou numa padoca genérica. Falo de um pequeno lugar chamado Amélia e Abigail, no número 110 da Rua Tagipuru, perto do Largo Padre Péricles. Um dos muitos cantos nos quais eu acabo entrando, por curiosidade profissional e pessoal. E um dos tantos que, a meu ver, acabam não sendo significativos o suficiente – digo isso sem ofensa – para serem publicados. Passei por lá de carro, por acaso, no meio da tarde, e fiquei intrigado, já que não dava para saber direito do que se tratava. Voltei no dia seguinte.

Não costumo relatar aqui essas experiências, essas incursões que eu chamo de  operação “de risco”. Até para poupar os leitores de um bla-bla-bla inócuo, de uma “não-dica”. Vou abrir uma exceção.

Gostei da simplicidade caprichada, da ausência de nome na fachada, dos desenhos nas paredes. Olhei pelo vidro e, apesar de minúsculo, o restaurante tinha um canto para espera, com um biombo e duas poltronas, as três peças num estilo meio art-déco.  Abri a porta e me acomodei, consciente da isca estava mordendo: todos que escrevem sobre comida, no fundo, sonham o tempo todo em encontrar um restaurante pequeno, barato, com grande comida e algum charme. Por aqui, esse tipo de milagre aconteceu pouquíssimas vezes na minha vida (no exterior, bem mais). E, ainda que, em 2014, eu esteja completando uma década fazendo resenhas, eu ainda caio nesse canto da sereia – o que, no fim, até acho bom. Sinal de que, apesar de macaco velho, exerço meu ofício com emoção.

Ficou com água na boca?

É em momentos assim que eu constato que eu gosto de pegar meu carro, me dirigir a um bairro pouco familiar (não é o caso da Água Branca, claro), me embrenhar por um restaurante desconhecido e embarcar numa experiência que pode ser pura perda de tempo (e um desperdício de apetite); ou uma refeição média; ou, com sorte, um bom repasto. Tem lá seu aspecto de aventura.

Mas retornando ao Amélia e Abigail. Trata-se mais de um café, que serve também almoços, um estabelecimento pequeno e prosaico como uma lanchonete. São sempre um ou dois pratos por dia. O dono recebe a todos educadamente, anota os pedidos, serve as mesas. Uma senhora  fica no fogão, que está logo ali, do outro lado do balcão. Uma menina ajuda. Enquanto a comida não vinha, eu me divertia fantasiando que havia descoberto um restaurante familiar em Paris, num arrondissement menos badalado; ou um bar numa ruela da Cidade Velha de San Sebastián. E não acho que isso seja pensamento de “colonizado”, uma idealização do estrangeiro. Cozinhar, quero crer, sempre acaba envolvendo a afirmação de uma identidade, em graus os mais variados. Comer bem, por outro lado, ainda que lide com paixões e posicionamentos, é um ato (uma busca?) que  não discrimina fronteiras.

Ok, ok, vamos ao pequeno restaurante. Funciona mais ou menos assim. A sugestão do almoço dá direito a uma salada e as receitas mudam diariamente. Havia duas possibilidades de principal e eu comi ambas, em meia-porção. Não estava no script, mas eu propus e o proprietário topou sem hesitar. Um caldo verde, bonzinho, caseiro. E um ‘risoto marguerita’, com tomate, mussarela e manjericão. Nada que valha maiores perorações, mas, diga-se feito com arroz arbóreo. E, confrontando expectativa e realidade: não, definitivamente não se trata daquele idealizado bistrozinho parisiense, nem da mítica tasca basca. De novo, não foi dessa vez.

Com uma água e os dois meios-pratos, a conta saiu por R$ 32. Se uma das formas de comprovar a qualidade de uma experiência é cotejar proposta e resultado, eu diria que o A e A se saiu bem. Serve direito quem apenas deseja saciar a fome com alguma pressa (acho que, tirando eu mesmo, todos ali trabalhavam nas redondezas). Pensando em minha agenda de refeições como crítico, sempre às voltas com deveres de produção de conteúdo, talvez eu tenha desperdiçado um almoço, o que faz parte do jogo. Contudo, ganhei uma experiência urbana, com requintes de gentileza e hospitalidade.  No fundo, sei que vou continuar entrando em portas desconhecidas (além das conhecidas, das consagradas, das esquecidas etc). E, vez por outra, seguirei conduzindo meu carro a recantos que só o Google Maps sabe onde ficam.

Em suma, do meu jeito, eu me divirto com essa brincadeira (e, no ato de colocar o ponto final no texto, ficou mais claro: é disso que trata o post).