Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Mr. McLaren

08 abril 2010 | 18:36 por Luiz Américo Camargo

Associar a figura do produtor cultural (empresário? produtor musical?) inglês Malcolm McLaren ao movimento punk e aos Sex Pistols é a generalização mais óbvia e imediata. Não há como fugir muito disso. Mas McLaren, que morreu hoje de câncer, aos 64 anos,  foi na verdade um dos mais astutos interventores (na falta de termo melhor) do universo pop. Alguém que entendeu como poucos as relações do capitalismo com a cultura de massa – seja na esfera do rock, da moda e de variadas formas de arte e entretenimento. Foi capaz de criar e destruir tendências, de induzir comportamentos. E de confundir, bem mais do que explicar.

À época dos Sex Pistols, ele dizia que um dos grandes prazeres de ter levado o punk ao estrelado era justamente explorar o sistema que o explorava. Sociologias de botequim (ou de pub, melhor dizendo) à parte, McLaren foi mesmo um fenômeno criativo: soube unir  intuição e capacidade de provocação a um peculiar repertório estético e artístico, transformando tudo em marketing. Mas sempre com muita ironia e cinismo. Não se levava a sério e adorava quando enfiava pela goela do público algum novo ‘produto’.

Mas o que isso tem a ver com este blog, que trata essencialmente de comida (e de alguma bebida)? É preciso deixar registrado que, entre as muitas funções e bicos que o multimídia McLaren desempenhou ao longo da vida, estava a de provador de vinhos. E não dá para passar batido pela admiração que McLaren nutria pela cultura francesa. Por mais de uma vez, especialmente quando lançou o disco  ‘Paris’ nos anos 90, vi entrevistas nas quais ele revelava que ter visitado a França ainda garoto foi o evento fundamental de sua formação. Os existencialistas, o clima de Saint-German-des-Prés, Juliette Gréco, tudo isso foi mais determinante na modelagem do caráter rebelde do que o rock’n roll americano.

Ficou com água na boca?

McLaren, um dândi com aguçado senso de estilo, gostava dos bistrôs. Da comida, mas principalmente da atmosfera, dos salões pequenos e enfumaçados. Vivia entre Londres e Paris. Muitos acham que ele era só um farsante que produzia lixo – talvez até ele concordasse. Independentemente dos legados musicais e culturais, quero crer que ele foi uma figura influente não só para o pop, mas para muita gente que lida com alguma atividade criativa. Chefs, inclusive. E aqui insiro uma frase de Morrissey sobre o punk e suas consequências. Mais ou menos assim: “Ser punk não era apenas algo ligado a ter de se vestir ou se comportar de uma certa maneira. O punk, na verdade, era a permissão para fazer qualquer coisa. Era um exercício de liberdade”. O espírito do “faça você mesmo” é uma conquista sem volta, felizmente. McLaren certamente deixou sua contribuição.