Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Na vertigem do rodízio

02 setembro 2010 | 09:12 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 2/9/2010

Eu resolvi fazer meu almoço de domingo no Fogo de Chão da Av. Bandeirantes. Uma cuidadosa apreciação de carnes entre garçons alucinadamente ágeis e clientes sistematicamente ruidosos. Queria experimentar o corte recém-incluído no rodízio, o shoulder steak, o primeiro dianteiro servido na casa. Mas queria também avaliar o restaurante, no momento em que completa 30 anos – e verificar a possibilidade de uma refeição mais pausada, num ritmo que não seja o da velocidade vertiginosa da churrascaria.

Não vou me ater ao sucesso nacional e internacional da marca criada pelo gaúcho Arri Coser nem discorrer sobre seu modelo de negócios. Vou só descrever minha experiência com as carnes (dispensei apenas o frango) e testando o serviço. E, quando se trata de uma máquina complexa como o Fogo de Chão, é preciso usar de uma objetividade quase científica.

Ficou com água na boca?

Comecemos pelos cortes. Eu provei 11 deles e, em certos casos, repeti alguns. O primeiro aspecto observado, evidentemente, foi o sabor. Mas também ponto de cocção, temperatura interna, suculência – isso, claro, considerando as peculiaridades de cada parte. Os mais fracos: o pernil de cordeiro, servido bem além do ponto, já ressecando; e a costelinha suína, com o sabor da marinada muito presente. Os melhores: o bife ancho, com a gordura perfeitamente derretida; a costela premium, de gosto intenso e textura firme, como a nos lembrar que o maxilar existe para ser usado; e o estreante shoulder steak, extraído da paleta, uma carne surpreendente, de fibras longas, cuja umidade interior vem principalmente do colágeno. E os demais? Na média, bem feitos, do cupim ao filé mignon.

Agora, o serviço. Existe uma sabedoria no porcionamento da carne – isso, no sistema de rodízio em geral, mas no Fogo de Chão em particular. A proposta de que cada corte seja talhado na espessura certa, para que seja comido sempre quente, é, sem dúvida, uma medida gastronômica. Algo que me parece mais razoável do que os bifões de meio quilo das steak houses (onde o melhor, a meu ver, é sempre compartilhar). A racionalidade termina, contudo, quando entramos na cadência implacável do espeto corrido. Mas aí surge a questão: se existe sobre a mesa a bolachinha de duas faces, com as cores verde e vermelha, podemos nós ditar o ritmo do almoço? Ou isso é como querer fazer meditação num estádio lotado?

Pois eu fiz questão de comer um corte de cada vez, sem atropelos. Cada vez que uma carne aterrissava no meu prato, eu virava o sinalizador para o lado vermelho. Só desvirava quando estava pronto para a próxima. O resultado: nos momentos em que me mantive “indisponível”, fui abordado três vezes. Acho que um índice pequeno, dado o intenso tráfego de garçons ao redor (aliás, de onde eles surgem?). Mas ainda assim uma sutil pressão para que você coma mais, e mais rápido.

E para quem não é exatamente um glutão, o rodízio compensa? Façamos os cálculos. São R$ 88 por pessoa, um valor que, com bebida e serviço, passa dos R$ 100 ou R$ 120. Mais ou menos o que se paga numa boa steak house. Sendo assim, talvez a opção seja algo que extrapole a comida e a conta. Quem sabe seja uma questão de estado de ânimos. Ou de espírito de aventura.

 Fogo de Chão
Av. dos Bandeirantes, 538, Vila Olímpia, 5505-0791 (mais duas unidades em SP) 12h/16h e 18h/0h (sáb., 12h/0h; dom, 12h/22h30). Cc.: todos. Rodízio: R$ 88, por pessoa