Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Não é para fracotes

08 outubro 2010 | 10:56 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 7/10/20

O inglês Ryk Preen é um mestre-cuca de linhagem pré-Marco Pierre White, pré-Gordon Ramsay, pré-Jamie Oliver. O que significa isso, para um chef súdito da rainha? Que sua inspiração nasce da comida dos pubs, das receitas caseiras, da dieta dos trabalhadores urbanos e rurais – não só da Inglaterra, mas também da Irlanda e do País de Gales, lugares onde ele morou e trabalhou. Sua cozinha, assim, seria, digamos… preocupantemente britânica? Eu prefiro dizer que os pratos de seu Bristol Tavern não são para fracotes, ainda que não sejam rudes.

O chef começou sua trajetória em São Paulo em 2008, ao lado da mulher, brasileira, abrindo a Pie in the Sky, uma pequena casa especializada em tortas ao estilo inglês, com recheios como carne bovina e cerveja, rim, cordeiro e outros mais. Logo ele passou a diversificar a produção, apresentando linguiças de fabricação própria (Preen já foi açougueiro) e outros pratos mais, uma evolução que deu origem ao prosaico Bristol Tavern, um restaurante de esquina, com atmosfera de bar – que, nos dias de vento e de temperatura baixa, deixa entrar um frio que lembra o Atlântico Norte.

Ficou com água na boca?

As tortas, claro, estão presentes em uma ou outra variação, embora não sejam as estrelas do cardápio, já que elas continuam sendo servidas primordialmente no Pie in the Sky. O destaque, então, acaba sendo para as linguiças, hambúrgueres e bolos de carne, entre outras sugestões, em geral em porções fartas. O serviço, um tanto lento e confuso quando a casa abriu, em julho, já está melhor.

O cozinheiro se sai bem em clássicos de seu país, como a kidney pie (R$ 24), valorizando o sabor e a textura do rim. Não economiza em ardor no bolo de estrogonofe (R$ 24). Revela habilidade de charcutier nas linguiças (em opções suínas, ovinas e bovinas, com preços entre R$ 24 e R$ 26), apresentadas com purê de batata e gravy – o tradicional molho feito de carne. E consegue um bom equilíbrio entre potência e leveza no pork ploughmans (R$ 24), a versão inglesa do patê em croûte de porc, que chega à mesa com salada, pão e picles.

Mas seu melhor prato talvez seja mesmo o fish and chips (R$ 40), preparado com abrotea fresca, servido apenas de sexta e de sábado. Trata-se de um filé alto, empanado e frito em alta temperatura (250°C), de modo a ficar dourado por fora, com uma capa bem seca e crocante, e úmido por dentro. As batatas fritas, em corte mais grosso (ao estilo pont-neuf), também são bem executadas.

Provavelmente não é comida para todo dia. Mas ao apostar numa modalidade culinária pouco conhecida na cidade e, mais ainda, ao se dedicar a reproduzir uma cozinha que é fruto de uma memória e de um repertório pessoais, o cozinheiro se diferencia do panorama geral. Uma alternativa despretensiosa para tomar cervejas, ouvir rock – especialmente punk e pós-punk da Inglaterra, bem ao gosto do chef – e variar da mesmice que assola uma considerável parcela de restaurantes paulistanos.

 The Bristol Tavern
Rua Min. Gastão Mesquita, 234, Perdizes, 2361-3033. 12h/22h (5ª, até 23h; 6ª e sáb., até 00h30; fecha 2ª e 3ª).
Cc.: A, M e V. Cardápio: inglês, com linguiças, tortas, fish & chips