Paladar

O Andrade e o sertão pré-Mocotó

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O Andrade e o sertão pré-Mocotó

18 setembro 2013 | 22:40 por Luiz Américo Camargo

Nos tempos anteriores ao Mocotó – me refiro ao dos moldes atuais, prodígio de popularidade –, comida nordestina era no Andrade. Não havia dadinho de tapioca nem carne de sol a baixa temperatura. E o público de Pinheiros, mas não só ele, ia ao restaurante de Manoel Leite de Andrade em busca de escondidinhos e jabás. Melhor dizendo, ia, não. Vai, especialmente em noite de forró.

Mas por que começar falando do Mocotó? Porque a casa de Rodrigo Oliveira acabou redefinindo a cozinha sertaneja na cidade. Quase uma nouvelle cuisine aplicada aos sabores da Caatinga. Pesos e apresentações foram revistos, técnicas foram incorporadas, sem abrir mão da essência original. E o Mocotó, fundado em 1973, deixou de ser apenas um sucesso local para, nos últimos anos, também atrair estudantes, turistas estrangeiros e a classe média de outros bairros às terras altas da Vila Medeiros.

Ficou com água na boca?

Ambiente. Pouco luxo e comida farta embalados pelo forró à noite. FOTO: Sérgio Castro/Estadão

O que não significa, contudo, que os dois lugares sejam antípodas, pelo contrário. São complementares, defensores de uma mesma cultura, talvez apenas representando momentos diferentes. Então, tratemos logo do Andrade, que é o tema da resenha.

Criado em 1980, o espaçoso restaurante da R. Artur de Azevedo surgiu, declaradamente, como opção mais central para quem quisesse provar a comida típica das casas do Norte sem se deslocar à periferia. Em pouco tempo, trocou o enfoque sertanejo por uma abordagem pan-nordestina, com especialidades do interior e do litoral, aproximando a carne de sol da moqueca e do bobó, sempre com receitas tradicionais.

Os pratos do Andrade continuam generosos, na dosagem e no destemor com os condimentos. Os bolinhos de mandioca com carne-seca (R$ 19, com quatro unidades), por exemplo, não têm pretensão de tira-gosto: matam fomes. O baião de dois (R$ 27) concentra energia para atravessar o Semiárido, com arroz e feijão reforçados por linguiça, toucinho, carne-seca, queijo coalho, tudo puxado na manteiga de garrafa e com cheiro-verde à mancheia.

Clássico do restaurante, a carne de sol é apresentada em cortes de filé mignon e alcatra (preços de R$ 49 a R$ 109). É feita na frigideira (dá-lhe manteiga de garrafa!) ou, eventualmente, preparada no espeto, acompanhada por abóbora, mandioca e batata-doce. Uma densidade de sabores que só mesmo uma grande fatia de pudim de leite (R$ 7) consegue contrabalançar. Sobre as quantidades, tenha em vista que meia-porção dá para dois, quem sabe três comensais. Porções inteiras, de quatro para mais.

Por fim, é bom lembrar que tem música ao vivo à noite e no almoço de domingo, com direito a casais rodopiando na pista. Mas não me arrisco a comentar a qualidade do arrasta-pé. Da minha parte, como vocês sabem, eu só queria jantar.

Por que este restaurante?
É um clássico da culinária nordestina.

Vale?
Os pratos não são lá muito baratos, considerando que a casa é simples. O segredo é compartilhar as porções. Sem bebidas, paga-se em torno R$ 50 por cabeça. O couvert artístico custa R$ 21. Vale conhecer.

SERVIÇO – Andrade
R. Artur de Azevedo, 874, Pinheiros
Tel.: 3064-8644
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h/1h (5ª, até 2h; 6ª e sáb., até 4h; dom., 12h/17h; fecha 2ª)
Cc.: todos
Estac.: manob. R$ 20

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 19/9/2013

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