Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O cardápio? Peça ao DJ

25 setembro 2008 | 15:44 por Luiz Américo Camargo

Publicado em 25/09/2008

Luiz Américo Camargo – O Estado de S.Paulo

– Eu só queria jantar. Talvez a abordagem tenha soado exótica na hora de fazer a reserva, mas assim foi. No novíssimo 3×4 – como classificá-lo? um restaurante, uma balada, um dining club? – é necessário garantir a mesa com pelo menos um dia de antecedência. Você telefona para um número específico, deixa seu nome e aguarda a confirmação do pedido, que é feita algumas horas antes da visita. “É por causa da procura”, explica a amável atendente.

Ficou com água na boca?

A humilde intenção de provar a comida do lugar parece deslocada porque este é um endereço que, mesmo antes de abrir, já vinha se credenciando como ponto de encontro de celebridades. Entre seus vários sócios estão a modelo Isabeli Fontana e o jogador de pólo Rico Mansur. Na entrada, há seguranças e hostess, como em uma casa noturna. O primeiro ambiente que se atravessa é um grande lounge com teto retrátil. Depois de passar por uma pesada porta giratória, chega-se ao salão, de pé-direito altíssimo: o ambiente é decorado com fotos gigantes feitas por André Schiliró, onde predominam imagens de modelos fotográficos. São pouco mais de 21h e a música, tocada por um DJ, já está bem alta. E se você for sentar em alguma das mesas laterais, que têm sofás em vez de cadeiras, um alerta. Os móveis são muito confortáveis, mas não para comer: quem encosta, fica longe do prato; quem senta na ponta, perde um pouco da estabilidade. É que eu só queria jantar.

Mas e o cardápio? Na verdade, são dois, concebidos por Vicci Domini e Guilherme Masta. Um de culinária japonesa, outro de perfil mais contemporâneo. Nada de se estranhar, uma vez que, de uns anos para cá, convencionou-se que sushi, sashimis e congêneres eram comida de balada. Porém, surpresa: os sushis são bem construídos, com bom tamanho, um ótimo arroz. E caros. R$ 22 por um par de niguiris de atum vermelhíssimo, com quase nada de gordura, convenhamos, é um preço alto.

Do lado ocidental, segue então uma lista de petiscos (tratados como finger foods), entradas, pratos de carne, peixe, ave e massas. O começo foi animador, com o ceviche de lagosta ao teriyaki de ostras (uma única colher, por R$ 18) e o creme de gorgonzola ao prosecco (R$ 20 a tigelinha). Seria o prenúncio de uma cozinha sem timidez de sabor, ainda que num ambiente no qual a comida, em tese, é coadjuvante? Nem tanto. Falta equilíbrio. Entre os pratos, o espeto de robalo (R$ 59) era guarnecido por itens que pareciam estar ali por acidente – creme de amendoim, creme de abobrinha, salada verde. A costeleta de vitela à milanesa (R$ 57), razoável, também não parecia à vontade na presença das lentilhas de Puy. Na hora da sobremesa, foi difícil fazer o pedido: estava escuro, a música já tinha subido de volume. Foi escolhida uma, chegou à mesa outra, uma sopa de morangos com merengue e chantilly, só mediana. Constatado o engano, o garçom – o serviço, diga-se, é muito educado – excluiu o doce da conta.

A pergunta é: este é um programa que vale pela refeição, considerando apenas o que está no prato? Talvez não. Esta é uma balada, um evento social, e nisso parece que a casa é competente. Lá pelas 23h, estava quase lotada, com muita gente se divertindo. Mas vou deixar que alguém que entenda do assunto comente esse aspecto. Eu só queria jantar.

Serviço

R. Bandeira Paulista, 676, Itaim-Bibi, 3078-0288 (100 lug.)

3ª a sáb., a partir das 19h. Só com reserva, pelo tel. 2122-4051

Cartões de crédito: todos. Manob.: R$ 18

Cardápio: japonês e contemporâneo.

Avaliação: se é só para jantar, pense bem. Ao redor da mesa tem uma balada.