Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Peixe-banana

28 janeiro 2010 | 20:22 por Luiz Américo Camargo

Este blog fala muito de peixes. Robalo, badejo e outros mais sempre aparecem por aqui.
Mas neste post a ideia é abordar uma espécie difícil de achar; duríssima de capturar; complicada de se descrever. O bananafish.

O peixe-banana, espécie de charada, de elemento simbólico do conto A Perfect Day for Bananafish, de J. D. Salinger, tinha um apetite notável. Era um predador insaciável, como o nome sugere, de bananas. Na aparência, tratava-se de um bichinho comum, sem atrativos. Mas era capaz de traçar – segundo o conto – até 70 frutas, num dia inspirado.

Não existe (até onde sei) nos livros de ictiologia nenhum peixe-banana. Existe, falando de coisas marinhas, no máximo, o lagostim-banana (banana prawn). Mas o bananafish nunca deixou de ser um enigma. Salinger morreu hoje, aos 91 anos, e, ao que parece, não deixou pistas sobre o assunto.

Ficou com água na boca?

Acho que li quase tudo dele, especialmente na época de faculdade. Reli algumas coisas, já me comovendo menos com os conflitos, mas sempre admirado com o estilo. Por certo tempo, para mim, Salinger foi a grande referência de texto.

Ainda que sentimentos difusos, emoções estranhas, misticimos e irracionalismos dessem a impressão de um autor partidário da escrita automática, feita “a quente”, Salinger era um artesão rigoroso. Escrevia, reescrevia, burilava, cortava, modelava. Fazia e refazia um texto trinta vezes, se necessário. Sua linguagem coloquial, de tão fluente, parecia surgir espontaneamente, nascer pronta. Mas era uma construção, produto de trabalho duro, incansável. Uma pedra muito polida.

A Prefect Day… contém também um daqueles casos clássicos de problemas de tradução. Em dados momentos, Sybil, a garotinha que aparece na história, solta a frase “see more glass”, enigmaticamente. É uma brincadeira fonética com o nome do protagonista, Seymour Glass (a família Glass é importantíssima na obra salengeriana). Na tradução para nossa língua, como ficou? “Viu mais vidro”. Mesmo com a devida explicação no pé da página, não deixa de ter sua piada, como dizem em Portugal.

É o que posso dizer neste post quase anti-Salinger: feito em escrita praticamente automática, a quente, no calor da notícia, com as primeiras lembranças. É sempre estranho ter de comentar a morte de um ídolo de juventude.

Amanhã eu volto, juro que tratando de comida de verdade.