Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Peru com vista para o Japão

30 agosto 2012 | 07:43 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 30/8/2012

O Killa abriu em 2009, empunhando a bandeira da nueva cocina andina e ocupando uma tímida esquina em Perdizes. Acabou conquistando um público cativo, num bairro mais habituado aos bares do que aos restaurantes, e alcançando uma considerável regularidade (há dois anos, venceu inclusive um Prêmio Paladar com seu ceviche). Agora, a casa mudou de endereço, a poucas quadras do ponto original, e foi para um imóvel mais espaçoso, com um bonito salão, um mezanino, além de um balcão bem mais confortável.

Instalações novas à parte, o Killa fez outro movimento digno de nota em sua proposta gastronômica: ficou mais próximo do estilo nikkei, a cozinha que os imigrantes japoneses desenvolveram no século passado a partir dos produtos e costumes peruanos. Uma vertente que teve em Nobu Matsuhisa um de seus grandes divulgadores, a partir dos anos 70, e chegou a São Paulo em 2004, por intermédio do já extinto Shimo (numa época em que a onda peruana ainda não tinha se espalhado pela cidade).

Ficou com água na boca?

Quem agora comanda a cozinha é o limenho Kenji Shiroma, que foi chef executivo do Hotel Roosevelt, no elegante bairro de San Isidro. O cozinheiro manteve receitas do menu anterior, como o ceviche tradicional (R$ 29), feito com peixe branco (no dia em que foi provado, era buri), camarão, lula; o polvo crocante (R$ 34, com legumes cortados em julienne); e o lomo saltado (R$ 39). E implantou alguns novos, como o causushi (R$ 25), niguris preparados com causas de batata no lugar do arroz; o harumaki (R$ 16) de frango e de salmão com guacamole; e o quinotto (R$ 38), com camarões e quinoa cozida à maneira de um risoto.

Meu preferido, no entanto, não foi um prato inspirado nas tradições de Lima, mas sim o tenro cabrito à nortenha (R$ 59), servido com arroz huacatay (feito com folhas de calêndula), de preferência seguido pela mazamorra morada (R$ 12, com chicha morada cremosa e frutas) de sobremesa. Já no extremo oposto, ficou o ponja serrano (R$ 48), composto por gyozas de salmão em abundante molho huancaína (à base de queijo cremoso e ají amarelo), um prato quase inexpressivo. No balanço final, eu diria que o programa é satisfatório, mas falta ainda uma certa tipicidade. Como se o chef estivesse receoso de impactar o paladar local com a potência de alguns sabores peruanos.

Com o salão cheio, o nível de ruído é dos mais altos, a ponto de inspirar duas atitudes: ou você para de conversar com seus companheiros de mesa, já que ninguém se ouve direito; ou pede mais um pisco sour, que é bem feito, e solta a voz também. E o serviço ainda patina, com alguns deslizes que só acabam sendo atenuados pela presença constante e atenta do restaurateur Georges Hutschinski. Mas, comparando-se com a antiga sede, foi um avanço e tanto.

Por que este restaurante? Porque ele acaba de ser reinaugurado, com mais espaço e novos pratos.
Vale? Entre porções e pratos, dá para comer abaixo dos R$ 100. Vale arriscar.

Killa R. Padre Chico, 324, Perdizes, 98551-8511