Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Pintxos y raciones em Pinheiros

19 agosto 2011 | 08:05 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 18/8/2011

Na dúvida sobre como proceder, o melhor foi simplesmente perguntar: “Como é o esquema?” Pois eu conheço os restaurantes de São Paulo. E sei como funcionam os bares de pintxos em San Sebastián. Mas ainda não sabia qual era o código no Donostia, a taberna de inspiração basca aberta há menos de um mês em Pinheiros.

 Pois então: é meio cá, meio lá. O ambiente é mesmo de bar e, tal como acontece nos botecos daquela região espanhola, os pintxos – os petiscos e pequenas porções – estão sobre o balcão. Mas no Donostia não se come nem se bebe de pé. Não dá para pedir um prato e circular recolhendo o que se quer, nem mesmo os pintxos que dispensam aquecimento. A proposta é observar as opções do dia, sentar à mesa, conferir também o que está no cardápio e, aí sim, pedir.

Ficou com água na boca?

A dinâmica funciona? Ainda precisa de aprimoramentos e, a meu ver, provoca um vaivém de pratinhos que poderia ser evitado, tudo conduzido de forma simpática. Mas, convenções e indefinições à parte, a comida do Donostia é acima da média, em comparação com outras tentativas de inspiração basca que já se instalaram na cidade.

Quem comanda a casa são Juantxo Martín, responsável pela cozinha, nascido em San Sebastián (Donostia, em basco), e o argentino Christian Angel Civitale, que cuida do salão. Martín, engenheiro de som de formação, trouxe algumas receitas clássicas de sua terra, que foram adaptadas aos ingredientes e condições locais e exercitadas desde 2010 em serviços de catering e bufê. O repertório da casa inclui vários pintxos (preço médio de R$ 6) e uns poucos pratos.

O bacalhau é tratado com equilíbrio e está presente em diversos itens: canapés, mil-folhas, no recheio de pimentões e, como prato, no tradicional al pil-pil (R$ 45). O croquete de jamón é dos melhores que já provei por aqui, tanto pela delicadeza do béchamel do recheio como pela precisão da fritura. O pintxo de polvo à feira (à galega, com batata e páprica) é outro acerto, assim como as batatas bravas (R$ 13,90).

Já a tortilla de batatas é bem construída, servida em fatias altas, mas talvez um pouco seca internamente (o que é questão de gosto: a umidade e a espessura das tortillas podem provocar longos debates entre cocineros e abuelas).

O Donostia, entretanto, não é ortodoxamente basco. E, aos sábados, no almoço, a paella é apresentada como opção única – o que desperta um comentário. Será que todo restaurante espanhol que abre por aqui tem mesmo que pagar um tributo a esse prato? Nada contra a clássica receita valenciana. Mas será que os paulistanos já não estão preparados para enveredar por outras propostas espanholas que escapem do porto seguro do arroz com açafrão e cia.?

De resto, o novo bar/restaurante consegue criar uma atmosfera sem afetações e, na busca da tipicidade, não cai na caricatura. Parece mais interessado em oferecer comida simples e direita do que na construção de um parque temático.

Por que este restaurante?
Porque é uma novidade interessante.

Vale?
A conta pode variar bem. Só com pintxos, mata-se a fome abaixo de R$ 50 por cabeça (sem vinho). Ok, vale. No País Basco seria a metade. Santo por santo, Paulo anda mais caro do que Sebastião.

Donostia Taberna Basca – R. Simão Álvares, 484, Pinheiros, 3034-0996. 18h/0h (6ª, até 1h; sáb. 12h/1h; dom., sob confirmação; fecha 2ª). Cc.: todos.