Paladar

Pop, no centro e quase brasileiro

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Pop, no centro e quase brasileiro

06 março 2013 | 23:00 por Luiz Américo Camargo

Como não se render ao Ramona, no centro? A começar pelo endereço: o restaurante ocupa um dos pontos mais icônicos da cidade, a esquina da Av. São Luís com a R. da Consolação, em frente à Biblioteca Mário de Andrade. Continuando pelo cardápio, com bons preços e um curioso diálogo entre pratos de domínio público, cozinha contemporânea e criações com acento brasileiro. Terminando pelo estiloso ambiente e, mais ainda, pela qualidade da trilha sonora.

Por outro lado, como se render ao Ramona? Pois, se vários pratos são interessantes, outros carecem de acabamento. E, eventualmente, demoram além do normal para chegar à mesa. E, costumeiramente, o serviço pode comprometer não só a performance de cozinha, mas também se atrapalhar nos trâmites mais comezinhos, como acolher e zelar pelos pedidos.

Ficou com água na boca?

Retrô. Ambiente inspirado no art déco, com vista para a Av. São Luís. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Quase vizinho de seu irmão mais velho, o bar Alberta#3 (com o qual compartilha três proprietários), o Ramona tem como chef Bruno Fischetti, ex- P. J. Clarke’s. Um background que, certamente, contribui para a qualidade do hambúrguer e dos petiscos. Embora, a meu ver, o lado mais interessante do cardápio esteja nos pratos de feição mais tropicalizada – mesmo que sejam apenas lampejos, toques de brasilidade.

A batata-doce roxa (R$ 15), tostada em azeite de peperoncino e servida com alho, é um exemplo de entrada substanciosa que não cai na saturação. O galeto recheado com pera e queijo brie (R$ 35), por sua vez, faz um bom dueto com as lentilhas (bem al dente) com bacon. Já o ossobuco de porco (R$ 38), acompanhado por abóbora cabotchá e pimenta biquinho (em porção farta, como uma guarnição, mesmo) assadas, ficaria melhor com um molho rôti mais saboroso.

Comparando a visita realizada no ano passado com as deste ano, a cozinha evoluiu. O serviço, nem tanto. Os garçons são gentis, mas, à medida que o salão vai enchendo, a coisa desanda. Até que, numa volta a mais, o parafuso espana. É um tal de ficar em confabulações sobre “o sistema” em volta da tela do computador; é um passa dali, desce daqui, sem trazer a conta, sem pegar aquele prato que acabou de sair do elevador – e que você sabe que é o seu… Sentado, até dá para aguardar, ouvindo canções dos Smiths, dos Talking Heads, de Bob Dylan. O duro é ficar à espera de uma mesa, sem entender o que está acontecendo.

Devidamente ajustado, o Ramona até seria um concorrente de peso para o Dona Onça, no Copan. Ainda não é o caso. Faz sentido que a casa não queira um atendimento à antiga, digamos, já que o perfil de seu público é mais para moderno. Só que o almoço (que oferece inclusive uma boa fórmula executiva, por R$ 35) é muito frequentado por gente que trabalha na região – engravatados, leia-se. Um pouco de caretice com profissionalismo, portanto, não faria mal. Afinal, há lugares em São Paulo que conseguem conciliar as duas vertentes, e bem.

Por que este restaurante?
Porque a proposta é interessante, com ressalvas.

Vale?
Vale o passeio. Especialmente em dias e horários mais tranquilos.

SERVIÇO – Ramona
Av. São Luís, 282, Centro
Tel.: 3258-6385
Horário de funcionamento: 12h/0h (4ª a 6ª, até 2h; sáb., 13h/2h; fecha dom.)
Cc.: todos
Estac.: Manobrista R$ 20 (só no jantar)

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