Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Refeições offline

23 novembro 2014 | 23:59 por Luiz Américo Camargo

Fiz um combinado com minha mulher. Vamos tentar não usar o celular no restaurante. A não ser que seja urgente, caso seja possível identificar a urgência. Não se trata de um ataque súbito de etiqueta, ou de algum prurido anti-tecnologia – embora os dois aspectos também contem. Simplesmente não queremos ficar como aqueles casais que, cada vez mais, dividem a mesa mas não interagem, absortos em seu universo particular no smartphone. É evidente que cada um faz o que quiser e eu não vou aqui enveredar por posturas censórias. Mas é esquisto, o tipo de estranheza que percebemos em nós mesmos quando identificamos nos outros. “Temos sido assim?” Tomara que não.

Não consultar, não teclar, não se conectar em meio a entradas, pratos e sobremesas, para ela, sempre foi mais fácil. Para mim, menos. Estou frequentemente de olho em quantos gostaram da imagem de pão publicada pela manhã no Instagram, em quem tem dúvida sobre a receita, à espera de um email, de uma mensagem, tirando fotos, investigando no Google sobre uma dúvida que obviamente poderia ficar para mais tarde… Creio que não sou um adicto em níveis extremos. Mas uso bastante o aparelho, reconheço. Até porque é interessante, fascina, vicia.

Já tenho tentado não atender a qualquer telefonema dentro do restaurante, isso faz tempo. Principalmente se estiver, digamos, mastigando. Se for coisa importante, vou para a rua, para a área da espera, não falo da minha cadeira. Caso contrário, ligo depois, mando uma mensagem sucinta. Há casos e casos, evidentemente. Porém, acredito que que o vizinho não precisa conhecer minhas questões do cotidiano. Do mesmo modo que eu não tenho necessidade de saber que a senhora da mesa de trás já marcou sua viagem de férias e que o orçamento solicitado pelo distinto cavalheiro à esquerda não foi entregue pelo prestador de serviços. Tem os que passam a refeição inteira falando, falando. Talvez para dizer que não almoçaram sozinhos. Abro aqui um parênteses.

Ficou com água na boca?

Meu avô, que morreu há vinte anos, sempre gostou de carros e de estradas. Negociava automóveis, cruzava o país numa época de rodovias ruins e trajetos sempre meio aventureiros. Fumou muito, cigarros Lucky Strike e charutos, até ter um infarto no fim dos anos 50 e parar definitivamente.  Certa vez, ele me disse assim: “Eu gostava de fumar. Mas, na verdade, o cigarro era importante porque me fazia companhia. Eu ficava horas dentro do carro, e o cigarro era um amigo”. Levando essa ideia para um outro contexto, não consigo imaginar as festas dos tempos e das histórias de Scott Fitzgerald sem pensar inexoravelmente em pitadas e baforadas – para não citar o álcool. Num universo onde ninguém sabia ainda quem era quem, onde abonados formandos da Ivy League, arrivistas, pessoas esforçadas/desenturmadas e toda uma variada fauna dividiam o mesmo salão, como se comportar, como se movimentar, com quem conversar (caso alguém nos dirija a palavra), o que fazer com as mãos? Pensando  agora nos nossos restaurantes e baladas contemporâneos, o amigo fiel é o celular. Trocamos um vício por outro. A solidão e o sentimento de inadequação, contudo, são mais ou menos os mesmos. Fecho o parênteses.

Há ainda a notória ansiedade foodie, algo inerente ao nosso tempo. Me parece inevitável. Comemos, registramos, compartilhamos, em muitos casos profissionalmente, não apenas por diletantismo. Mas… será que não dá para fazer isso num breve momento, em alguns determinados instantes? Ou será que a refeição inteira precisa ser fotografada, filmada, comentada online? Mais uma vez: não recrimino, inclusive sob risco de soar apenas anacrônico. Só que, vendo de fora, acho cada vez mais deslocado (ainda que caminhe para se tornar o comportamento padrão). E, de volta ao casal digital lá do primeiro parágrafo, me convenço de que não quero para mim. Sem contar que, no fim, fica desrespeitoso com os companheiros de mesa, com o alimento. Até com os cozinheiros, embora nem todos se deem conta (afinal, divulgação é sempre bem-vinda etc). Tudo bem que já abolimos as orações antes de comer (estou falando genericamente, ok?), que pouco a pouco vamos quebrando códigos e frescuras. Mas é preciso reservar algum desvelo mínimo ao repasto.

Também não estou chegando ao extremo de defender um romantismo offline, uma nostalgia do concreto em contraponto ao virtual/social, como certa vez escreveu Tom Rachman (saiu no Link, em 2011). Afinal, tenho este blog, tenho perfis nas redes, divulgo meu trabalho e me comunico com os leitores, o que é incrível. Estou apenas querendo refletir sobre o grau de conectividade, mensurar a dose, delimitar as fronteiras entre o teclado e o garfo, circunscrever o momento propício, separar o que é importante do que é adiável. Nem desejo transformar o post num saco de gatos de comportamentos digitais, meu ponto é mais específico. Então, retomando a ideia que abriu este texto: quando nosso jantar atingir uma espécie de quietude, de pausa sem interlúdios entre tantas conversas, haverá talvez a possibilidade de simplesmente não falar nada, de seguir sem acionar nossos smartphones. Depois de tanto tempo juntos, de tanta vida partilhada, creio que podemos nos dar ao luxo de algum silêncio.