Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Scooby-sushi

31 março 2010 | 11:18 por Luiz Américo Camargo

Quem segue o blog sabe que, vez por outra, retomo aquela história de encontrar um restaurante japonês que seja bom e tenha preço razoável – o japa de combate, para o cotidiano. Não anda fácil, como sabemos. Porém, em andanças recentes, o que tem me chamado a atenção é ver como se expande a faixa de estabelecimentos ruins e não necessariamente baratos.

Sabem aquele desvirtuamento pelo qual já passou a cozinha italiana, abrindo espaço para restaurantes que tratam mal massas e molhos, carregando em tudo, produzindo algo que, no fim, é mera gororoba? Pois creio que os japoneses vivem processo semelhante – algo que vem se acelerando de alguns anos para cá. Há tantas casas, tantas opções que, claro, é possível montar um painel que vai do excelente ao péssimo. De mil restaurantes, você terá alguns de primeira linha, outros abaixo…  Até chegar, já na base da pirâmide, no fast-food da categoria, naqueles que apenas emulam uma modalidade culinária.

Não sou um conservador, um purista, que prega um respeito ritual às tradições. A cozinha, aliás, se transforma assim, quando alguém se desvia de um caminho aparentemente incontornável e propõe uma solução diferente. Como acontece, claro, em muitas áreas do conhecimento. Ser ortodoxo ou não, portanto, é algo que cabe a cada cozinheiro, a cada restaurador. O problema, contudo, não é a invencionice. O problema está naquilo que é ruim.

Ficou com água na boca?

Nesses dias, enquanto eu provava uma tentativa de omakase num restaurante desses que têm várias filiais, o sushiman me serviu um enrolado – vou chamar assim – que continha fritura, marinados, várias coisas cremosas por dentro, molho tarê, sem falar no arroz gelado e muito mais. Foi difícil engolir, não vou negar. E perguntei por que ele fazia aquilo. “É um dos sucessos da casa”. Ou seja, tem muita gente que gosta. Para mim, aquilo era apenas bizarro, uma mistureba que me lembrava mais a dieta do Scooby Doo do que uma intrigante proposta de quente/frio, crocante/cremoso, doce/salgado etc etc.

Será que o referido sushiman já provou niguiris bons, sashimis bem escolhidos, bem talhados? Será que ele tinha esse repertório? Ou apenas jogava astutamente com alguns signos da moda, ambicionando preparar, como ele mesmo explicou, “pratos que fazem sucesso”?

Não tenho nada contra a onda das temakerias, por exemplo. Considero mesmo um bom lanche, desde que se use um peixe minimamente aceitável. Por que hambúrguer pode e temaki não? Acho salutar que o estilo japonês se amplifique com tanto vigor pela cidade. Até gosto de imaginar que o restaurantezinho barato pode funcionar como porta de entrada do público para uma cozinha nipônica mais bem elaborada. Mas talvez isso seja ilusão.

O apreciador do enrolado multi-coisas (o equivalente dos portentosos X-tudo criados nas lanchonetes) estaria interessado num sushi clássico, com pescado de primeira linha? Já não sei dizer. Por ora, enquanto batuco aqui no teclado, eles me dão a impressão de fazer parte de universos que não se comunicam, ainda que compartilhem alguns códigos estéticos.