Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sem medo de acertar

02 fevereiro 2012 | 10:08 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 2/2/2012

Na dúvida, fui consultar os arquivos desta coluna. Vi que é a segunda vez que publico um segundo texto sobre um mesmo restaurante. Aconteceu antes com o Pomodori, em 2009 e 2011. Hoje, é com o Clos de Tapas, sobre o qual escrevi há quase exatamente um ano. Pura falta de originalidade ou de assunto? Não, apenas uma mudança que considero importante.

Naquele janeiro de 2011, tratei da abertura do restaurante. Um endereço promissor. Só que faltava emoção, apetite, e havia um predomínio da estética sobre o sabor; do acessório sobre o essencial; do discurso sobre a espontaneidade. Uma sensação que perdurou em visitas posteriores, mas se dissipou em refeições recentes, há poucos dias. Comi bem, em suma.

Ficou com água na boca?

A brasileira Lígia Karazawa e o espanhol Raul Jiménez seguem executando a mesma cartilha: servem cozinha de vanguarda de inspiração espanhola a partir de produtos brasileiros, em pequenas porções, pensando mais no contexto de um menu do que numa estrutura entrada/prato. Contudo, a diferença é que o receio de errar deu lugar à liberdade de acertar. Eu sei que esta última frase pode até parecer conversa daqueles cursos motivacionais. Mas a síntese é que o prazer gastronômico, enfim, parece estar em primeiro plano.

O almoço executivo do Clos de Tapas (R$ 42, durante a semana), por exemplo, tornou-se uma das boas opções da cidade em sua categoria. O menu inclui couvert e uma sequência de pratos leves, saborosos, que mudam sempre. Coisas como creme frio de cenoura, salada de cevadinha e camarões, arroz de galinha caipira. Outro aspecto importante. Logo que me acomodei e escolhi, ouvi a seguinte pergunta do garçom: “O senhor está com pressa ou quer fazer uma refeição mais lenta? Qual a velocidade?” Escolhi o ritmo normal, digamos, e correu tudo bem. Isso é serviço.

À noite, segue o esquema já conhecido: os pratos podem ser pedidos unitariamente, ou em menus (R$ 136, o de seis tempos; R$ 185, o de nove). E foi no menu-degustação que me deparei com sugestões interessantes como a caixa de legumes, a ostra empanada e o “bloody steak”, contrafilé servido com “sangue” de beterraba (uma ideia que me remeteu a um prato do japonês Yoshihiro Narisawa, feito com cervo). Assim como vi algumas incongruências. A arraia, por exemplo, apetitosa e precisa na cocção, é servida com purê de maçã e uma “rosa” de beterraba – que, ao chegar à mesa, ganha uma nova borrifada de aroma de rosas. Por que atrapalhar o peixe? Já na sobremesa “coco”, feita com leite de coco congelado e pó de cacau, a presença do curry parece excessiva. Mera idiossincrasia do crítico? Eu diria que é só uma ligeira reflexão sobre o equilíbrio.

Falando de novo do serviço, é ótimo constatar que o restaurante não adota mais aquele tom de porta-voz de um estilo de comer civilizador, explicando até a fórmula da água. Para alguém que só queria jantar, como eu, é um alento ver os pratos – e o que precisa ser informado a respeito deles – sendo apresentados com muito mais fluidez. Bom para a casa, bom para os clientes.

Por que este restaurante? Porque, a meu ver, ele passou por uma grande evolução.

Vale? O cardápio do almoço, por R$ 42, vale muito a pena. À noite, a conta fica bem mais alta. O menu de seis tempos, por exemplo, pode ser a melhor escolha.

Clos de Tapas – R. Domingos Fernandes, 548 V. Nova Conceição, 30452154.