Paladar

Sem toalha, mas com rigor

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sem toalha, mas com rigor

15 outubro 2014 | 18:23 por Luiz Américo Camargo

Com a licença de vocês, vou começar pelo geral, para depois entrar no específico. Estamos no meio de uma onda de novos bistrôs. Tanto interesse tem a ver apenas com o apreço pela forma mais popular da restauração à francesa? Certamente que não. Trata-se de um modelo de negócio, mais simples de manter do que uma casa mais chique – o que condiz com os tempos atuais. Contudo, há diferenças dentro desse universo. A imensa maioria pode até se alinhar com a estética (ou seria ética?) “sem toalha”, mas nem todo mundo se expressa do mesmo jeito. No caso do Oui, o despojamento me parece o reflexo de uma escolha: investir na cozinha, mais consistente que a de seus colegas de estilo.

O pequeno restaurante do chef e sócio Caio Ottoboni ocupa um ponto que já foi do Le Petit Trou, em Pinheiros. Seu menu cabe em uma página. E o funcionamento é mais ou menos o seguinte. A maior parte das sugestões varia conforme a sazonalidade. Fixas, mesmo, são três opções bovinas: steak tartare, filé mignon au poivre e prime rib de angus. No almoço de terça a sexta, o menu contendo entrada, prato e sobremesa custa o preço do principal escolhido, com acréscimo de R$ 6. O couvert, pão e manteiga, sai por R$ 5. À noite e no fim de semana, vigoram as cifras do à la carte.

Ficou com água na boca?

‘Menu inspiração’. Pernil de vitela com purê finíssimo de cará, do Oui. FOTOS: Nilton Fukuda/Estadão

Ottoboni fez parte durante sete anos da brigada de Erick Jacquin, de quem foi subchef, e passou 2013 trabalhando na França. O jovem mestre-cuca é perfeccionista com as bases e esmerado nas apresentações, mas sem afetação. Seu steak tartare mostra a textura e o tempero sem timidez que se esperam desse clássico (R$ 18 ou R$ 36, conforme a porção). O filé mignon (R$ 49), que tem cocção atenta e pimenta na medida, chega guarnecido por belas batatas fritas. É verdade que os pratos da seção “menu inspiração do mercado” mudam periodicamente. Mas eu espero que os comensais tenham a sorte se deparar com receitas como o pernil de vitela com um finíssimo purê de cará (R$ 39); a paleta de cordeiro assada com cenouras glaceadas (R$ 45); e o bacalhau fresco com sauce hollandaise (R$ 52), todos preparados com rigor de haute cuisine e desassombro de bistronomie.

Para sobremesa, são sempre duas alternativas. Nas três visitas realizadas, o ótimo brownie (R$ 13) sempre esteve entre elas e há um aspecto do doce que eu gostaria de ressaltar, por bobagem que pareça. É o creme que o acompanha, feito de maracujá – um ingrediente ardiloso, sempre a um passo de se tornar enjoativo e que, aqui, surge apenas no melhor de seus aroma e sabor. É em minúcias assim que se percebe a intervenção do cozinheiro.

A carta de bebidas também é sintética, mas destaca vinhos interessantes, cidra e boas cervejas artesanais. O pacote, combinado a um serviço sereno e eficiente, fazem do Oui um bom programa.

Por que este restaurante?
Porque é uma boa novidade.

Vale?
O executivo custa o preço do prato escolhido, mais R$ 6. À la carte, é possível fazer uma refeição completa abaixo dos R$ 100, sem bebidas (a rolha de vinho é gratuita). Vale.

SERVIÇO – Oui
R. Vupabussu, 71, Pinheiros
Tel.: 3360-4491
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h30/23h30 (6ª até 0h; dom., 12h/16h; 2ª fechado)
Cc.: D, M e V
Ciclofaixa: Av. Brig. Faria Lima. Metrô: Faria Lima

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