Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Serviço de luxo

29 setembro 2014 | 00:22 por Luiz Américo Camargo

A observação veio da minha filha, quinze anos completados neste mês. Ao me ver pagar R$ 25 pelo serviço de valet, na saída de um restaurante, ela me perguntou, espantada: “Quando eu era pequena, não custava R$ 6 ou 7?”.

Custava. E eu fiquei pensando a respeito. Considerando a inflação de 2004 para cá, será que os R$ 7 realmente equivaleriam aos R$ 20 ou R$ 25 que temos pago por aí?

Para não tropeçar nos juros e em outras variáveis que costumam confundir quem não é da área de finanças, fiz uma simulação usando uma calculadora online (vejam no Google). Verifiquei o seguinte: em 2004, os tais R$ 7, pelo IPCA, seriam algo como R$ 12 nos dias de hoje, com uma inflação de quase 70%. Uma diferença e tanto.

Ficou com água na boca?

Certo, certo, eu sei que alugueis subiram. Seguros, taxas, tudo foi reajustado. São Paulo e o Brasil se tornaram lugares caríssimos para viver e para empreender. Mas trata-se de um aumento muito expressivo.

Já comentei aqui, mais de uma vez, que o que mais incomoda é pagar mais pelo valet do que por uma sobremesa. Ok, virou um mal necessário, tornou-se parte do cotidiano, mas como dói no bolso. Para muitos restaurantes, é gênero de primeira necessidade: se não tiver, o cliente reclama (embora a obrigação de cuidar da frota da freguesia seja um pepino para chefs e patrões).

O que o consumidor pode fazer? Buscar estacionamentos ao redor, mais em conta? Zona azul? Ou não ir de carro ao restaurante, sempre que possível? Do meu lado, cada vez mais (falei disso, de passagem, no post ‘Valet de bicicleta?’), quando há condições, e especialmente no almoço, vou a pé ou de transporte coletivo. Acho realmente sensacional poder voltar andando de uma refeição.

E o táxi? É uma alternativa para a noite, de fato. Agora, já que toquei no assunto: é um serviço que precisa melhorar, não? Pelo preço das corridas, podiam ao menos conhecer mais ruas e bairros. A maioria não domina os caminhos da cidade. Quando a lei seca passou a vigorar, por exemplo, poderiam ter pensado em pacotes e acordos especiais (realmente especiais, digo). Poderiam inclusive ter revisto a bandeirada (sabemos que a categoria é conservadora, que a estrutura sindical é complicada…). Mas não aconteceu. De avanço, só a tecnologia, com os aplicativos e o aperfeiçoamento dos GPSs.

Mas retornando ao valet. Não seria exagero supor que ele tenha ficado tão mais caro, também, por conta de uma procura maior do que a oferta. Afinal, este é um país que tem apostado muito de suas fórmulas de progresso na produção e na venda de automóveis – se quase todos estão motorizados, em algum lugar vão precisar estacionar; contudo, não há espaço e manobrista para todos. Seguindo um raciocínio análogo, então: será que uma diminuição da demanda derrubaria os preços, ou quem sabe atenuaria a velocidade dos reajustes?

Não dá para afirmar, mas me parece uma boa tentativa. Por essas e por outras, só sei que, cada vez mais, tenho excluído o carro de meus almoços. E não tenho me arrependido.