Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sim, podemos falar de dinheiro

28 setembro 2009 | 08:26 por Luiz Américo Camargo

Dinheiro, para mim, é um assunto como outro qualquer. É claro que não é um tema para ser conversado a todo momento, em todo lugar – isto, o bom senso nos ensina. Mas ele não precisa ser evitado, tratado como tabu.

Pois eu acho que é esse excesso de etiqueta que tem causado o seguinte fenômeno. Podem reparar: toda vez que um restaurante oferece um prato especial do dia, uma sugestão especial do chef, raramente o preço é comunicado na hora. Essas receitas ‘fora de série’, exibidas ou num papelzinho preso com clipe numa folha do cardápio, ou anunciadas de boca pelo maître, deveriam, sim, ter seu valor apresentado ao cliente. Até porque pode haver uma surpresa no final.

Então, podemos falar de números. Pois o dinheiro em questão é nosso.

Ficou com água na boca?

Já contei neste blog, num post antigo, sobre uma dessas sugestões do dia. O funcionário ofereceu (“a costeleta à milanesa está uma maravilha”) e minha mulher se interessou pelo prato. E foi caríssimo, algo totalmente fora da média do restaurante. Imagino que aconteça isso com muita gente.

O mesmo ocorre com vinho em taça. Se você quer saber sobre as opções em copo, a informação precisa ser obtida na base do fórceps. O ideal seria que elas fossem mostradas por escrito. Mas, na impossibilidade de uma carta (ou de uma folha plastificada, que fosse), o garçom deveria dar o serviço completo. Mas o diálogo, geralmente, acontece assim, inclusive em muitos restaurantes considerados de bom nível:

Cliente: “Por favor, vocês tem vinho em taça?”.
Garçom: “Temos”
C: “E quais são as opções?”
G: “Tinto e branco”.

Ok. Aí o negócio é respirar fundo. E prosseguir.

C: “Certo. Mais quais são esses vinhos?”.
G: “Cabernet chileno e Chardonnay argentino”.

Muito bem. Você respira fundo de novo. Com mais algumas perguntas, descobrirá o produtor. Com sorte, até a safra. Até que, enfim, pergunta o preço. Neste momento, pode ser que o atendente feche um pouco a cara, ou deixe transparecer uma expressão de ironia. Ah, você e essas perguntas sobre… o preço.

Voltando o filme, editando a cena: não seria mais simples se ele nos desse os dados essenciais, inclusive quanto custa?

Mas existe, digamos, essa finesse de não falar, bem, daquele assunto.

Agora, eu não condeno de todo a brigada de salão. Tem muito cliente que deve ficar ofendido se o custo for logo anunciado. “O que esse cara acha, que eu sou pobre?”, devem pensar os mais paranóicos.

Pode até ser que pensem isso, mas não importa. E também não vem ao caso quem tem pouco ou quem tem muito dinheiro. O visitante está contratando um serviço e deve exigir respeito com seus recursos – mas sem cair na arrogância do “eu pago, eu posso tudo”, outro problema tão frequente.

Na dúvida, a transparência é a melhor coisa. Eles fazem o trabalho deles, nós fazemos as nossas opções, sem ninguém enganar ninguém. Se as informações estão sobre a mesa, o entendimento é mais fácil.

Mais uma vez lembrando Saul Galvão: o cardápio é o nosso contrato.