Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Tristões, aneis, valquírias e outras coisas mais

26 abril 2013 | 05:57 por Luiz Américo Camargo

Eu confesso que alimento um leve trauma dos nossos restaurantes alemães, especialmente os mais caricatos. Não, não, talvez eu esteja exagerando… Melhor dizer que tenho um pé atrás. Gosto de vários deles na cidade, considero que eles oferecem o retrato de um tempo, a identidade de uma colônia – embora, provavelmente, não reflitam mais o cotidiano e a vida real de seu país de origem. Mas tenho meus receios estéticos, digamos, daquelas ambientações evocando falsas Bavárias, chalés, camponeses rubicundos. Fico sempre naquela expectativa de que, a qualquer momento, um grupo poderá irromper numa cantoria a plenos pulmões de temas como ‘Lili Marlene’, batendo canecas gigantes de cerveja e dando tapões nas costas dos comensais vizinhos. Bobagem minha, eu sei.

O curioso – agora entrando no tema do nosso ‘Garçom: a música’ de sexta – é que no Weinstube, que resenhei na semana passada, a experiência foi outra. Numa de minhas visitas, havia sobre as mesas displays informando sobre um ciclo de atividades dedicadas a Richard Wagner, acontecendo no Club Transatlântico e no próprio restaurante. Faz parte da celebração de duzentos anos de nascimento do compositor e coisa e tal. E aí foi o outro lado da história: em vez do ‘alemão para turistas’, a referência cultural era um dos gênios da música germânica. A programação wagneriana, a proopósito, segue até ao fim de 2013 (os eventos estão noticiados no site do clube).

Não tocava Wagner quando fiz minhas refeições. Só não consegui deixar de pensar como seria ouvir suas óperas (as aberturas, ao menos) entre salsichas e chucrutes. Que tema combina com qual receita? Não vou me meter a responder. Digo apenas que minhas aberturas preferidas são as de ‘Tannhäuser ‘ e ‘Tristão e Isolda’. Mas talvez fosse engraçado, quem sabe, se o pato assado à moda germânica, o prato individual mais caro da casa, chegasse à mesa do cliente ao som da ‘Cavalgada das Valquírias’… (Por favor, eu não estou dando ideia).

Ficou com água na boca?