Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Um olho na pasta, outro no público

01 setembro 2011 | 17:14 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 1/9/2011

Com duas semanas de atividade, o Italy já anda lotado. Seguindo pela Oscar Freire, logo depois da Padre João Manuel, você vai ver à esquerda uma fila de carros esperando pelo valet. É ali. A nova casa do chef e restaurateur Paulo Barroso de Barros dá a impressão de que irá na trilha do sempre lotado Due Cuochi.

Quando foi aberto, em 2005, o Due Cuochi (de Barros e de Ida Maria Frank) parecia ter encontrado uma espécie de fórmula. Atualizou a cozinha de trattoria oferecida na cidade, servindo-a em ambiente informal, a preços (ao menos, àquela época) acessíveis, numa região de clientes abonados. Deu tão certo que o restaurante criou um circuito virtuoso: tem filas porque está na moda, continua na moda porque é desejado, é desejado porque tem filas.

Ficou com água na boca?

Com o perdão da repetição, eu já escrevi que o Due Cuochi entrega o que promete – o que não é pouco. Mas cozinha, competência empresarial e fatores esotéricos à parte, o sucesso de Barros em vários empreendimentos talvez tenha a ver com uma particular sensibilidade de captar os anseios do público paulistano. É assim não apenas no segmento italiano, mas nos nada baratos hambúrgueres e afins do General Prime Burger e no algo espetaculoso Kaá.

Essa arguta percepção do mercado também está na base do Italy, que não cobra pelo kit pão, focaccia e azeite (repostos constantemente), num momento em que o couvert virou tema de discussões, inclusive legislativas. Que trabalha com muitos pratos em torno dos R$ 30, numa fase em que os preços de São Paulo atingem picos espantosos. Que leva em conta que, embora muito difundida, a cucina feita por aqui, paradoxalmente, é carente de opções que congreguem simplicidade e execução confiável. Por outro lado, é curioso que o Italy, mais barato do que seu irmão mais velho, tenha mais cara de ristorante do que o Due Cuochi. Pelo ambiente (um imóvel de três andares) e pelo serviço mais formal.

A cozinha comandada pelo toscano Giancarlo Marchegiane, no geral, acerta no ponto das massas, no equilíbrio dos molhos, em outras cocções. Trata-se de comida potente, saborosa, em porções fartas – e vi poucas oscilações nas visitas que fiz. Eu gostei em especial do picci com molho de linguiça e cogumelos (R$ 34); do triangolini de galinha d’angola (R$ 40); do coelho assado em porchetta (R$ 44, servido às segundas). E achei que o cuoco foi bem até em um prato que tinha tudo para vir com aquele peso cantineiro, o rigatone recheado e gratinado com molho rosé (R$ 34,50).

Nos momentos de salão cheio, um dos atrativos do Italy acaba não funcionando tão bem: é o carrinho de antepastos, com diversas opções de conservas, queijos e embutidos (porções para dois a partir de R$ 22). É melhor pedir enquanto o movimento está tranquilo. Depois, demora e fica mais difícil.

O Italy, em resumo, não é restauração fina, é trattoria. E seria ótimo que a casa continuasse nesse patamar (diferentemente do Due Cuochi, que foi reajustando o cardápio ao longo dos anos). É saudável para o cenário gastronômico que haja espaço para o luxo, para o médio, para o mais despojado, para o trivial – não dá para todo mundo querer ser caro e pretensamente chique. E, se dentro de seu âmbito, todos tentarem cozinhar bem, fica melhor ainda.

Por que este restaurante? É uma novidade de um chef de sucesso.

Vale? Sem vinho, sai em torno de R$ 70 por cabeça. Está direito. Mas atenção: se o couvert é de graça, um suco custa R$ 9.

Italy
R. Oscar Freire, 450, Jd. Paulista, 3167-7489. 12h/15h30 e 19h/0h (6ª e sáb. até 1h; dom., 12h/17h. Cc.: todos