Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Um Oriente feito de ardor

25 dezembro 2009 | 07:38 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 23/12/2009

Quando se diz que determinado restaurante se dedica à cozinha mediterrânea, o que nos vem à cabeça? Um cardápio quilométrico com especialidades que cruzam de Portugal à Turquia? Ou pensamos em sabores que determinem referenciais mais palpáveis – neste caso, uma culinária à base de azeite, alho, vegetais, ervas? Na dúvida, o mais natural é tender à síntese e ficar com os ingredientes. Talvez um raciocínio semelhante se aplique ao Ban Kão.

O novo restaurante, de identidade asiática, funciona no ponto que pertencia ao tailandês Nam Thai. A casa passou por uma reforma e chegaram novos sócios, donos do Clube Ásia 70. O carioca David Zisman segue como chef, mas expandiu limites para fora da Tailândia: as receitas se inspiram na Malásia, Vietnã, China e até Japão.

Ficou com água na boca?

Mas o que é ser oriental? Como ir além da fantasia de tempestades tropicais e condutores de riquixá transitando por ruas lotadas? Na leitura do Ban Kao, o mapa da Ásia se traduz no uso farto de pimentas, curry, gengibre, de uma forma meio difusa. Ao abrir o cardápio, vemos informações sobre quais pratos são mais apimentados. Mas não há referências claras sobre a origem das receitas. Se você quiser saber o que é de inspiração malaia ou vietnamita, precisa ser do ramo. Ou perguntar aos garçons.

É curioso ver o Japão incluído neste Oriente gastronômico. Sim, é óbvio que ele faz parte da Ásia. Mas é que, de tão familiar, a cozinha nipônica nos parece mais próxima de nós que muitas tradições ocidentais. E a refeição começou justamente com alguns niguiris do sushi bar, nenhum deles muito estimulante, tanto pelo arroz como pela qualidade do pescado.

Saindo do Japão, a viagem se animou um pouco com o singapure basket (R$ 30), mix de entradas que inclui rolinho de pato confitado, cestinhas de frango, salmão defumado com molho de iogurte e vieiras com molho de chile. E melhorou mais com os pratos principais. Como o robalo pla neung prik (R$ 52), preparado no vapor, foi servido num ótimo ponto de cocção. E, ainda que ostente duas estrelas na escala da pimenta, é equilibrado e funciona bem com sua guarnição, shiitake e acelga. E como o massaman, cubos de filé mignon com cará envolvidos num molho com três estrelas, o mais picante de toda a carta.

Ao que parece, a linguagem da casa é a do ardor. É nos sabores picantes que o Oriente imaginário do Ban Kao se sai melhor. É estranho apenas que, em São Paulo, essa Ásia inventada seja em geral associada ao clima de balada, com música alta e atmosfera lounge. Se é para idealizar, budas e pagodes abrem mais o apetite.

Ban Kao
R. Rua Manuel Guedes, 444, Itaim-Bibi, 3168-0662
12h/15h e 19h30/0h (6ª e sáb. 19h30/1h30; fecha dom.). Cartões: A, M e V
Cardápio: oriental, destacando Tailândia e Japão