Paladar

Uma tasca para o centro

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Uma tasca para o centro

26 fevereiro 2014 | 20:00 por Luiz Américo Camargo

Aquele lugar, aqueles comensais… Tudo parece meio familiar, embora a casa tenha sido inaugurada há apenas um mês. Pode ser efeito do Largo do Arouche, sempre na memória da maioria dos habitantes da cidade (e produto dos ares do algo antiquado Hotel San Michel). Pode ser ainda vestígio do Antiquarius, personificado pelo estilo de atendimento e, especialmente, pela borrada lembrança de alguns habitués do extinto restaurante, que você (re)conhece de vista. Pode ser ainda pela presença de figuras públicas (ou quase isso), que nos remetem à política local. Sendo assim, com tal capacidade de evocar reminiscências, teria a nova Tasca do Arouche já nascido com alma de veterana?

Tasca do Arouche. Acolhedora, cardápio com ênfase no bacalhau. FOTO: Evelson de Freitas/Estadão

Ficou com água na boca?

Não chega a ser isso. Mas o novo empreendimento do restaurateur José Maria Pereira e do chef Ernestino Pontes, da Tasca do Zé e da Maria, abre com uma proposta bastante amadurecida, embora precisando de polimento. O cardápio? É o mesmo da casa-mãe: majoritariamente português, com ênfase no bacalhau. O serviço? Tem espírito sempre acolhedor. O público predominante? Durante a semana, secretários de governo e Prefeitura, membros da Academia Paulista de Letras. Todos trabalhando no entorno e, até então, contando com o La Casserole como alternativa de almoço mais caprichado.

O couvert inclui queijo fresco, manteiga, croquete de carne, bolinho de bacalhau, risole de camarão; e só escorrega no frescor do pão, o que aconteceu em todas as visitas. Entre as variadas opções de bacalhau, o da Tasca (R$ 99) chega à mesa perfeitamente dessalgado, com cebolas caramelizadas, batatas ao murro e brócolis. Nos domínios do arroz (o chef Pontes usa o tipo carolino, português), o de polvo (R$ 65) é rico, encorpado, com grãos estritamente al dente; o de pato (R$ 55), não economiza lascas da ave, e lembra mais o risoto à italiana do que a preparação típica do Minho.

Entre as sobremesas (R$ 14,90), gostei da siricaia e do toucinho do céu (numa versão de textura mais seca e granulosa). Mas acho que o pastel de natas servido em fatias, como uma torta, não funciona tão bem: perde em mordida, em harmonia entre massa e recheio (unidades pequenas, entretanto, acompanham o café). Por fim, uma observação sobre o almoço executivo (R$ 49), estratégico naquela região: a diferença de qualidade com os pedidos à la carte ainda é grande. No espaguete de bacalhau, por exemplo (às sextas), a pasta, o peixe e seu molho não se conversam, parece que nem foram apresentados. O que é quase uma contradição – para não perder a piada –, num restaurante onde a tônica é fazer com que todo mundo acredite que é de casa.

Por que este restaurante?
Porque toda vez que um novo restaurante abrir no Centro será um bom motivo. E pelos pratos portugueses bem feitos.

Vale?
Por causa dos ingredientes, bacalhau em especial, os preços não são baixos. Se os pratos forem pedidos individualmente, é difícil gastar menos de R$ 150 por cabeça na refeição. Mas muitas das sugestões podem ser compartilhadas, o que reduz bastante a conta. O almoço executivo custa R$ 49. Vale conhecer.

SERVIÇO – Tasca do Arouche
Largo do Arouche, 212, Centro
Tel.: 3224-1421
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h/0h (sáb., 12h/0h30; dom., 12h/18h)
Cc.: todos
Estac.: manob. R$ 20

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/2/2014

Tags: